Subjetiva Santaconstancia.

Subjetiva Santaconstancia.

Saiu recentemente a notícia que a tradicional empresa do ramo têxtil Santaconstancia entrou em recuperação judicial, devido à crise financeira causada pelo covid-19.

santaconstancia
Boas e más lembranças

Ora, muitas empresas tem tido dificuldades atualmente, isso não é nenhuma novidade. Só foi dada relevância por causa da irmã do dono e ex-sócia ser Costanza Pascolato, influente consultora no meio da moda. Só. Este é o motivo de ter virado notícia. Em todas pesquisas que fiz, o tema era o mesmo. Citavam ela, embora a empresa como um todo seja referencial no segmento. Moda é totalmente subjetiva.

Similarmente como escrevi no post “o valor da vida“, a mídia vende o excepcional, ou algo que tenha algum motivo diverso de relevância. Subjetivo. Não é por que mais uma indústria, do ramo têxtil, em SP, está com problemas. Não é por que o “João da portaria”, “Miguel da malharia” ou Antonio da tinturaria” perderam o emprego. Não, é por que a mulher é famosa entre a alta sociedade (subjetivo?). Nada contra ela. Mas é ruim ler matérias rasas e sem considerar quadro geral. Não representam a realidade, ou a mostram de maneira parcial.

Por que isso é relevante para mim?

Porque meu pai trabalhou na Santaconstancia por muitos anos. EU trabalhei lá. Meu primeiro registro em carteira é de lá. Toda comida, roupas, material escolar, etc, que eu, meus dois irmãos, três irmãs e minha mãe consumimos por um bom tempo vieram do salário que meu pai recebia de lá. A casa onde morei até os 27 anos foi construída com o dinheiro de lá. Meu pai quem construiu. Isto não é subjetivo.


manutenção
Meu irmão, eu e meu pai na área da manutenção da SantaConstancia – começo dos anos 80.

Meu pai era duro, fechado e severo, mas incansável (altamente subjetivo, mas real para mim). Foi o encarregado da manutenção predial da empresa por vários anos. Fazia diversos tipos de serviços de alvenaria, marcenaria, serralheria, hidráulica. Um pouco de tudo.

Nos fins de ano, davam para ele algumas caixas com sobras de tecidos de coleções ultrapassadas e minha mãe costurava vestidos para minhas irmãs ou fazia cortinas. Uns tão chiques e diferenciados que não tinham como ser usados por nós (subjetivo). Ganhávamos também agendas e materiais escolares. Aceitávamos de bom grado, pois os recursos eram escassos. Não era ruim, pois não conhecíamos outras coisas. De certa forma, a Santaconstancia era uma parte da família.


O que a notícia atual não contou

Nas reportagens não contaram que esta é a SEGUNDA VEZ que a empresa passa por este problema. Fato. Não sei se por desconhecimento ou por irrelevância.

Em 1990, com a desastrada abertura do mercado feita pelo então presidente Collor, e o confisco da poupança e outras aplicações, levaram a Santaconstancia à pedir concordata poucos anos depois (que era o termo usado na época). Nessa vez, eu e meu pai perdemos o emprego. Nós éramos o “João da portaria”, “Miguel da malharia” ou Antonio da tinturaria”. Os anônimos que tiveram suas vidas modificadas e sentiram os efeitos da crise. Fato.

Eu era apenas “aprendiz de técnico têxtil”, vaga que consegui não por necessidade da empresa ou porque eu era habilidoso em alguma coisa (subjetivo). Não, foi mais uma cortesia feita pelos donos, à pedido de meu pai (fato). Recebia enquanto cursava o SENAI, e nas férias escolares fazia estágio. Sra. Costanza foi paraninfa de uma das turmas do curso e fomos apresentados: “Ah, o mesmo nome de um funcionário lá da empresa”. “Sim, ele é meu pai”. Fato, embora, aparentemente, teve mais relevância para mim do que para ela (assim com tem para a mídia).


Início e fim na Santaconstancia. Eu devia estar contente porque eu tenho um emprego, sou um dito cidadão respeitado e ganho Cr$4000 por mês (ouro de tolo – Raul Seixas).

Estágio é modo de falar. Ficava o dia inteiro sem fazer nada. Ninguém me ensinava ou direcionava as ações. Não tinha função e não queriam perder tempo comigo. Longas horas olhando para as pinças dos teares, de lá para cá, de lá para cá… traumatizante primeiro contato com trabalho (altamente subjetivo). Mas vejam, não estou reclamando. Sou grato pela oportunidade e entendo como é chato ter que destinar tempo útil para ensinar a quem não tem potencial para acrescentar nada. Nos meus anos como gerente de PCP, nem aceitaria a ideia de ter tal fardo sob minha guarda (100% fato!).

O apartamento

Anos mais tarde, depois da empresa se recuperar, meu pai voltou a trabalhar para os Pascolato. Os donos gostavam dele, ou do serviço dele, não tenho como afirmar. Numa administração familiar, confiança é muito importante (subjetivo).

A minha demissão coincidiu com o período final do curso (segundo semestre de 1992). Os melhores estágios iam para os melhores alunos e, como eu já estava registrado, não precisariam me encaminhar. Aí fui mandado embora e não tinha estágio para mim… fiquei com o “resto”, uma vaga que uma amiga havia abandonado. Depois de terminar o semestre, não me contrataram. Assim começou minha tortuosa carreira profissional. Fato.

Nesse meio tempo, enquanto eu procurava emprego, meu pai me levou para ver o trabalho que estava executando para eles (donos) na época, em um apartamento em Higienópolis. Serviços de acabamento em portas, rodapés, coisas assim. Ele era caprichoso e gostavam disso (subjetivo).

O lugar gigante. Um andar inteiro. Dava para se perder lá dentro. Jogar futebol (de campo). Provinciano que sou, fiquei abismado. Fato ou subjetivo?


apartamento luxuoso
Algo luxuoso assim. Não faço ideia. Tinha tantos cômodos que posso nem ter passado por todos.

Cito isso porque, na pesquisa que fiz, encontrei um livro chamado “O fio da Trama”, mas não sei do que se trata exatamente, pois só algumas páginas estavam disponíveis para leitura. Conta partes da vida da família Pascolato, num tom intimista, o que me leva a crer que a autora era amiga deles. Numa delas, citou a compra de um tal apartamento. Não sei se era exatamente o mesmo, mas foi naquela época e bairro. Não acho que seja comum, mesmo para os ricos, comprarem com frequência apartamentos gigantes em Higienópolis (subjetivo).

Refleti sobre o curioso choque de realidades. De um lado, os anônimos trabalhadores; do outro, a do luxo e riqueza. Um mesmo evento visto por ângulos completamente diferentes. Tudo é tão subjetivo!


Engraçado como a vida das pessoas se entrelaçam de maneiras curiosas e inesperadas. Parte do que sou e do que vivi têm relação com essa empresa, embora os donos nem saibam ou recordem.

Mais ainda, quantos funcionários foram contemporâneos meus e que eu nem faço ideia? Quantos convergiram num mesmo ponto em períodos diferentes, tendo histórias similares, mas cada um com sua própria versão?

Histórias esquecidas, perdidas e que nunca serão contadas. Bom, uma delas foi resgatada. Meio borrada, meio distorcida pelo tempo, mas não menos relevante. Para mim, pelo menos.


Para não passar batido, segue o link do livro citado. Não o tenho nem o li. Não sei se é bom, mas…


3 thoughts on “Subjetiva Santaconstancia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *