Por que gostamos de música? Parte 1.

Por que gostamos de música? Parte 1.

gostamos de música
MIke Portnoy e John Petrucci

Ah, música

Música faz parte da vida da maioria das pessoas. Não importa o país, religião, língua… está em quase todos os lugares. Mais ainda, ampliando o que se pode chamar de música, está na natureza, no vento, nas árvores, mares, montanhas, nos animais. Mas a pergunta é “por que gostamos de música?”.

Especificamente nos humanos, atribui-se o “gostar de ouvir música” à liberação do neurotransmissor dopamina, que causa a sensação de bem estar e de prazer. Ouvir música é como uma máquina do tempo: automaticamente te transporta por entre lembranças e memórias e é difícil desassocia-las depois, assim como cheiros e odores. Te distrai, te anima, te deprime; te faz balançar a cabeça e cantar alto dentro do carro, no banheiro, enquanto cozinha; serve como fundo para cerimônias e eventos. Uma festa sem música não é festa.

Ok, humanos se sentem bem pela dopamina liberada quando ouve-se música. Mas, qual o motivo de haver um mecanismo cerebral de recompensa por ouvir sons? Mais ainda, sons específicos e não qualquer um.

Qual a relevância da música ou sons para o desenvolvimento e evolução animal? Por que alguns sons classificamos como ruído, barulhos, cacofonias, ou percebemos quando algo está fora de ritmo ou desafinado? Não são perguntas retóricas. Podia me contentar em apenas ouvir, mas vou cavar mais fundo. Pretendo descobrir enquanto escrevo. Primeiro, vou dar nome aos bois.

música
oh, yeah!

O que é som?

Sem complicar muito, som é a propagação de vibrações mecânicas através de meios materiais (que tem massa e elasticidade), como sólidos, líquidos e gases. O deslocamento de ar, e consequente variação na pressão atmosférica, impacta em superfícies que absorvem ou refletem a energia cinética do movimento das moléculas no campo de alcance da onda gerada. O ar em movimento atinge seu ouvido e desloca os sensores internos, que convertem a vibração em sinais elétricos que são interpretados pelo cérebro.

Em outras palavras, quando você bate em alguma coisa essa coisa amassa e na volta empurra o ar, gerando “vento” que bate no seu “escutador de pagode”.

Percebemos normalmente o som através do ouvido, mas o corpo inteiro sente quando a intensidade é alta. Quem já foi em grandes shows com música ao vivo, sente claramente o impacto reverberando no peito. A pressão que o ar exerce faz vibrar sua pele, músculos e ossos, e as ondas fazem balançar as estruturas dos espaços ocos como pulmão e estômago.

O que chamamos de som é arbitrário, pois as frequências são limitadas pelo que nossos sentidos podem captar (20Hz até 20000Hz). Abaixo = infrassom. Acima = ultrassom. Outros animais ouvem em frequências diferentes dos humanos e usam como recurso geolocalização além da comunicação propriamente dita.

Hertz (Hz) é a unidade de medida de frequência, caso não saibam. 1Hz = uma oscilação ou ciclo por segundo.

Você sabia que existe uma arma sônica, usada pela polícia, para dispersar multidões? Ela causa desorientação, náuseas e vômitos. Não, não é funk, apesar de causar efeitos parecidos.

O que é música?

É a organização temporal de sons e silêncios (pausas). Numa definição mais refinada, é a combinação de melodia, harmonia e ritmo, de forma a soar agradável aos ouvidos humanos.

Aqui que a coisa complica. Som é fato; música é interpretação. Som é objetivo e quantificável; música é subjetiva e qualitativa. Ou seja, todos ouvimos sons (menos os surdos, claro) mas o reconhecimento como sendo música depende de quem ouve e dos valores mentais que possui. O que é barulho para um é música para os outros. O sinal sonoro de fim de turno numa fábrica ou fim de aula na escola, pode causar sensações mais agradáveis do que uma composição sinfônica complexa.

Música, melodia e harmonia são convenções humanas. Só fazem sentido para nossa espécie, pela faixa de frequência que conseguimos ouvir e pela configuração cerebral que dá significado aos sons. Hipoteticamente, um animal com audição mais apurada poderia achar as músicas humanas rasas ou pouco ricas. Certos estilos musicais causam essa mesma impressão.

Você sabia que a Nasa colocou uma seleção de músicas e sons terrestres em duas naves espaciais (Voyager I e II)? Saudações em várias línguas, músicas de todos continentes e idiomas diferentes, incluindo Johnny B. Goode do Chuck Berry. Os ETs perderão a viagem se vierem vê-lo. Já morreu.

Por que foi bom para os animais perceber e distinguir sons?

Considerando que a vida começou no mar, onde a luminosidade não é tão intensa, acredito que sistemas rudimentares de captação de vibrações tenham surgido para localização e exploração do ambiente ao redor. Sonares. Logo, formas de vida com essa capacidade teriam maior vantagem em relação as que não tinham, seja para detectar comida ou predadores. O som viaja mais rápido em líquidos do que em gases, devido a maior densidade de matéria. Assim, o tempo de resposta ou reação são menores.

Ouvir (no sentido mais amplo) permite perceber distâncias, velocidades e localizações. Possibilita a identificação de ameaças antes que sejam vistas ou durante a noite. Habilita distinguir animais e cataloga-los pelos sinais emitidos. Capacita a troca de informações através da comunicação (quaisquer que sejam os sons utilizados).

Ok, várias vantagens. Mas ainda persiste a dúvida: qual a razão de ter um sistema seletivo de recompensa cerebral de acordo com o tipo de som? Por que gostamos de música?

Não me xinguem, mas a resposta virá em um próximo post. Preciso dosar a mão para não escrever “textões” que ninguém lê. Aguardem.

Antes de terminar, uma amostra do que eu entendo como sendo música:

Hell´s Kitchen e Lines in the Sand são as únicas boas deste álbum.

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3 thoughts on “Por que gostamos de música? Parte 1.

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      Nos primórdios da internet aqui no Brasil, inicio dos anos 90, talvez, a NASA abriu um canal para que usuários do mundo todo enviassem uma canção. Não sei se um ET compreenderia essa ideia, mas enfim… mandei “objeto não identificado” do Caetano. Acho que “Life on Mars?” também seria uma boa ideia.
      Parabéns pelo site!

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        Há um antropocentrismo arraigado, mesmo nas mentes mais brilhantes, como o pessoal da NASA. Achar que uma forma de vida alienígena vai reconhecer o conteúdo pelas nossas métricas é absurdo! Coloque Caetano para uma zebra ouvir, observe o resultado e espere pela resenha dela. Muitos “ses” para rolar com os ETs. Obrigado pelo elogio.

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      Sim, som pra mim é muito rock!! Rsrsrsrz

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