O estranho no lugar estranho

O estranho no lugar estranho

Recobrando a consciência

Sentiu o impacto quando o chão veio ao seu encontro. Não lembrava de como chegara ali, nem de quem era. Um tipo de dor nova era experimentada, como se nunca tivesse sentido dor antes. A cabeça girou quando tentou levanta-la – oh, infernos! – pensou, quando uma água azeda saiu de sua boca. Estava mal a ponto de não se importar em voltar a pôr o rosto no chão. Permaneceu assim, prostrado, tentando juntar os pensamentos.

Pelo pouco que viu, em meio à tontura e à fadiga incomum que sentia, estava em um lugar lúgubre, melancólico, com um céu cinza pálido e nuvens escuras deixando o dia nebuloso. A vegetação parecia hostil, com tosseiras de mato e árvores retorcidas com seus galhos secos; o chão era úmido, e não raro, poças e lamaçais tóxicos espreitavam, como se desejassem uma emboscada. Havia uma maldade no ar, uma malícia que parecia sufocar e enuviar a mente.

Ruídos, gritos, gemidos, lamentações e súplicas completavam o cenário tenebroso. Ali, onde quer que fosse, não era um lugar feliz.

Não sabe quanto tempo ficou ali parado. Se adormeceu e acordou. – Talvez esteja sonhando – pensou iludindo-se, mas o cheiro não era de sonhos: era real. Decidiu, a muito custo, que precisava sair dali. Reuniu as poucas forças que tinha e pôs-se de pé e, cambaleante, notou que seu corpo estava mudado.

Estranha vestimenta

Enquanto andava, aparentemente guiado por um zumbido, ou melhor, pela ausência dele, pois sentia terríveis dores de cabeça quando mudava de direção, foi notando as mãos secas, terrivelmente secas. A pele estava esticada sobre ossos aparentes e finos. Todos os membros estavam secos e rijos. Sentiu náuseas ao tocar as costelas, com flashes e sons cruzando sua mente, numa tentativa frustrada de lembrança.

Neste instante, sua atenção foi dirigida, como se não tivesse controle de sua vontade, para os artefatos fixados em seus braços. Não se lembrava daquilo, apesar de estarem mortalmente ligados ao corpo. Soube instintivamente que não teria como tirar aquelas coisas, sentindo uma pulsação compassada com o coração e percebendo um brilho baço emanando naquele dia escuro e miserável.

No braço esquerdo, cobrindo-o do punho ao cotovelo, uma estrutura metálica pesada, grosseira e cinzenta gerava uma agradável sensação de proteção, como se fosse velha companheira e escudeira. Bruta, mas fiél. Alguns buracos, que pensou serem engastes, juntamente com estranhos desenhos, compunham a decoração, se é que poderia chama-la disso.

Percebeu então o braço direito, chamando como se enciumado pelo esquerdo, com um artefato similar, mas emanando desafio, como se quisesse ser testado, posto à prova. Ao focar-se nele, sentiu afobação e displicência, numa falsa coragem, mesclada com um senso suicida de quem não tem nada a perder. Pulsante e pungente, aquela coisa buscava pelo ataque. E sentiu confiança de que poderia se defender, caso necessário.

Já sua vestimenta eram trapos, com um capuz cobrindo parcialmente os olhos e uma capa puída e suja. De alguma forma, sentiu uma certa sabedoria e conhecimento percorrendo o material, como se vivo, buscasse entender o ambiente e a situação, mais até do que sua própria mente.

Concluiu, embora desconhecesse os motivos, que todas as três peças estavam ligadas e que faziam parte de seu corpo, inescapavelmente fundidas e integradas. Pela primeira vez, desde que acordou ali, percebeu que não estava só. Era como se mediasse um encontro de estranhos. Pelo menos é o que supunha, em meio a confusão que se apresentava.

Malditas plantas

o estranho

O avanço era lento. O terreno irregular cansava os pés; a vegetação trançada bloqueava caminhos; o mal estar causado pelos odores tóxicos minava a vontade de avançar. Além disso, sentia sede e fome, como se houvesse um buraco em seu estômago, como se nunca mais fosse se sentir saciado. No entanto, esse desejo era o que o movia naquele momento.

Em certo ponto, chegou em um beco sem saída. Deu meia volta e percebeu que o caminho que fizera havia mudado, como se as árvores tivessem mudado de lugar. Sentiu uma sensação claustrofóbica incomoda e opressora . Percebeu que os “três” estavam irrequietos, com cada parte querendo ir para um lugar diferente.

Decidiu que teria que escalar por sobre os ramos espessos e espinhosos para sair daquele buraco. A vestimenta reclamava, com a capa puxando-o para baixo. – Raios, deixe-me prosseguir! – esbravejou, percebendo que falava sozinho. Ao chegar ao topo, a estrutura colapsou. Os ramos amoleceram e caiu em uma poça doentiamente amarelenta. O líquido foi subindo pela roupa, mais rápido do que pela absorção normal. Aquilo não estava certo.

Tentou se mover, mas, a cada movimento, afundava mais. O cheiro de podridão e morte eram insuportáveis. Estava ficando tonto, perdendo os sentidos. No meio daquele tormento nebuloso, acreditou ter vistou os artefatos de seus braços mudando de forma, desesperados para sair dali. Em vão. Logo foram tragados e tudo ficou escuro.

De volta ao começo

Sentiu o impacto quando o chão veio ao seu encontro. Dor, novamente dor. Diferentemente da outra vez, teve lembrança do que julga ter acontecido. O gosto ruim na boca era decorrente daquela imundice amarela. Os ramos, as árvores, tudo fresco na memória.

Ao pôr-se de pé, percebeu que voltou onde tinha aparecido da primeira vez. Jurava que tinha morrido, mas lá estava, mais consciente do que antes. Alguma coisa havia mudado. Tinha uma teoria e queria testa-la. Fez uma inscrição no chão e percorreu o caminho anterior.

Desta vez foi mais fácil, mais rápido, e logo chegou onde tinha parado. Não percebeu que, ao abrir caminho, seu braço direito cortava a vegetação, e que seus passos eram mais firmes e menos cansativos.

Chegando na parede de ramos percebeu a loucura da sua ideia: iria se jogar na poça por vontade própria – Pior que está não fica… – e assim o fez.

Sentiu o impacto quando o chão veio ao seu encontro. Dor, novamente dor. No entanto, ali estendido, viu a marcação que havia feito no solo. Concluiu que, ao morrer, voltava para aquele ponto de partida. Uma angústia tomou seu coração – estarei preso aqui para sempre?


Esta é a primeira parte (de muitas, espero) de uma história maior que penso em desenvolver. Veremos até onde vai! Acompanhe e comente.

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