Justiça Inexorável – Parte 1

Justiça Inexorável – Parte 1

Inocência perdida I – A Maldade Inata

Aquele menino realmente era uma má pessoa. Não respeitava ninguém. Filho de um pastor fanático pelos Cinco, era órfão de mãe, que morrera no parto. Apesar da constante lembrança do fato pela parte do pai, sempre teve tudo o que quis. Inclusive uma irmã. Meia irmã, chamada Clara.

A residência era grande e havia espaço para plantar e criar animais. Muito espaço, pouca supervisão. Não havia um ser no rebanho que não tivesse marcas excessivas de queimaduras à ferro quente ou mutilações, um criado que não tivesse sido ofendido e humilhado, uma criada que não tivesse sido assediada ou violentada. Eram pessoas simples, e precisavam do trabalho, por isso se submetiam. Alguns se opunham, e alguns desapareciam, na mesma proporção.

Nem sua madrasta escapava de suas investidas, e há quem jure que o pastor era conivente e incentivador, numa relação totalmente distorcida e doentia. Aquele menino realmente era uma má pessoa.

Certa feita, passeando com sua meia irmã perto dos bosques do arredor, se depararam com um raro filhote de águia branca, tendo problemas no chão devido uma asa quebrada. A menina, mesmo sendo tímida e embotada, se encantou com a criatura e sentiu pena, perguntando se o irmão poderia ajuda-la.

Parece que o rapaz era alérgico à bondade, ficando profundamente ofendido por ela ter pedido aquilo. – Mata o pássaro – falou, com uma voz calma, mas que não deixava margens para argumentação.

A menina pareceu ter tomado um choque, saindo de sua costumeira estupidez. – Não, por favor. Eu faço o que você quiser. Ajuda ele.

– Eu quero que mate o maldito pássaro. Você é surda? – disse, puxando-a pela orelha para perto de si. – Agora!

A meia irmã era uma coisinha miúda, com cabelos claros e quebradiços. Tinha os olhos estranhamente juntos, que lhe conferia uma aparência de idiota. Na testa, apresentava uma marca disforme, e as criadas diziam que ela tinha sido tocada pelos Cinco. Mentiam por dó.

Mesmo se ela tentasse com toda sua força, não iria conseguir matar o filhote, que se debatia desajeitadamente. O menino impaciente interviu, mas acabou recebendo um corte no rosto feito com uma garra afiada. Gritou de dor e, com ódio, torceu o pescoço da ave, acabando com o seu tormento. Ao fazer isso, sentiu uma estranha sensação percorrer sua mão, como um formigamento. Finos filamentos de luz vermelha, verde e azul foram absorvidos pelo braço.

Por um instante, todo o ódio e maldade que possuía se concentraram e, em um surto de violência insana, desferiu um forte golpe acertando o maxilar da menina, quebrando-o. Ela caiu de quatro no chão, perplexa, e agora banguela. Tomado por um impeto maligno, o meio irmão rasgou o fino vestido da irmã, e a penetrou ali mesmo, naquela posição. Sangue escorreu por entre as pernas, e não era o sangue da Lua, que chegara poucos meses antes.

Depois de ter seu prazer, o menino pareceu ter acordado de um pesadelo. Percebeu o membro ainda rijo, pintado de vermelho e sujo de sêmen, e que ainda segurava o cadáver da águia com a mão. – O que foi que eu fiz? – pensou confuso. Quando largou a ave, imediatamente caiu no chão, em um pesado desmaio. Aquele menino era realmente uma má pessoa…?


O Heptavarium: Fragmentos Sobre a Criação

Todos os seres, criaturas e coisas, sejam animais, vegetais, minerais ou mistos, são e provêm do Um, tornados reais pela mediação dos Cinco. Assim, todas as coisas são nascidas dessa Coisa única, por adaptação (na interpretação do alquimista Hermes Trismegisto). As vibrações, ou música, colapsadas em forma do Ser, se desenvolvem através de emanações e absorções energéticas presentes em todas as interações nas 11 dimensões existentes.

A Tríade, Trindade ou os Três, são as energias primordiais que regulam a existência dos tornados reais, sendo: Vis Vitalis – a força vital, o espírito, o animus, o positivo, o ativo, o yang, o instintivo; Ímpetu – o vigor, o corpo, a anima, o negativo, o passivo, o ying, o subconsciente; Exponentia, o feitiço, a mente, o neutro, a razão, a sabedoria, o mediador, o conhecimento e experiência acumulada nos diversos ciclos. Suas combinações são infinitas.

Pela graça do Um, todas as possibilidades são possíveis e tudo está à disposição. No infindável Caos, não há nada que não possa ser aprendido e utilizado. Já está tudo lá. E tudo pode ser conseguido transformando a energia em suas diversas formas. A energia não pode ser criada nem destruída, apenas transformada. Para além do Um, não há nada que se possa compreender. A música universal é perfeita.


Inocência perdida II – O Lupanário

Apesar de todos os recursos que o pastor tinha, não conseguiu nenhum tratamento ou forma de trazer seu filho de volta à consciência. Daquele dia em diante, depois do desmaio, o menino permaneceu em um estado de coma profundo. Uns diziam que era o excesso de energia sendo transmutada; outros, que era falta de energia, e que oferendas deviam ser feitas. Entretanto, nada ajudava, mesmo com o pastor gastando fortunas em cristais de Vis Vitalis puro. A ferida do olho cicatrizou, mas ele não acordava. O menino assim permaneceu até que…

*

Clara. Seu nome era Clara, e toda culpa do mundo caiu em suas fracas costas. O ser que começou a se formar dentro de seu corpo era motivo de vergonha para a família. Aquilo não poderia seguir o caminho normal. Seria um escândalo e prejudicaria a imagem do pastor frente à lucrativa igreja. Arranjos foram feitos e ninguém da casa voltou à ver aquela criatura desgraçada. – Melhor não perguntar – pensavam.

*

Krakas, o quíron da região, era detestável. Enquanto outros de sua guilda eram bondosos, caridosos e altruístas, aquele um era o oposto: um pilantra, mentiroso e pervertido. Cobrava por todo e qualquer serviço de cura, embora preferisse atender os exóticos e doentios pedidos que os mais ricos fantasiavam. Sempre entregava o que pediam, por mais absurdo e moralmente distorcido que fosse.

O centauro mantinha um lupanário numa área afastada da vila, sempre com bom vinho, comida e música. Seus frequentadores eram bem seletos, e não era qualquer um que podia entrar lá e se divertir. Krakas se importava pouco com ouro e prata, preferindo metais mais nobres, como niobium, ou tecidos de meta-aramida, como o diamina, usados na confecção de armas e armaduras para os não fluentes, como ele. Apesar de toda a sabedoria, Quírons não podem se tornar fluentes. No entanto, o mais apreciado por ele eram os cristais de Vis Vitalis, Ímpetu e Exponentia. Eram o preço a se pagar pela entrada.

Naquele prostíbulo requintado, as tríades eram manipuladas de forma a maximizar as sensações de prazer e dor. Mais do que atos sexuais e conjunções carnais, o que os frequentadores buscavam eram experiências mais intensas e extremas possíveis. Ali dentro, podiam quase tudo. E Krakas quem elaborava as narrativas, baseado nos desejos expressos e não expressos, sendo estes últimos sua especialidade, o que o tornava tão procurado: entregava o que nem sabiam que queriam. Obviamente, nem tudo saía de acordo com o esperado, com muitos negando suas predileções secretas.

Entre os criados e serviçais, havia uma menina que era alvo de frequentes ataques e humilhações. Entre esfregar o chão e limpar latrinas, era espancada e estuprada. Toda a imundice e perversidade eram descarregadas na criatura que, de tanto sofrer, parecia não ligar mais, anestesiada e com a mente embotada. Em um ocasião, depois de uma sessão de tortura com agulhas de energia, foi duramente machucada por não ter reagido de forma apropriada, quando se esperava que expressasse dor e agonia. Sua rosto, que já era torto devido à um maxilar quebrado, virou uma massa de carne, ossos e tendões, uma polpa que causou repulsa em quem olhava. Para mitigar o visão, foi-lhe colocado um meio-elmo feio e pesado, com chifres curvos voltados para baixo. Krakas reclamou que desperdiçaram uma boa peça com a aquela infeliz.

No entanto, essa brincadeira custaria caro.


O Heptavarium: Fragmentos Sobre Morte, Renascimento e Obliteração

A Primeira Morte ocorre quando a energia Vis Vitalis se esgota. Nada vive sem um espírito. As experiências dos seres são medidas pelos Cinco no momento da cessação e, de acordo com elas, usando de suas prerrogativas de semi-divindades, definem o destino das criaturas e coisas.

Se, durante a existência, a Tríade não for desenvolvida, o conjunto passivo é desfeito, e as energias voltam à integrar o Caos. Plantas, minerais, animais inferiores e outras criaturas inconscientes têm esse fim.

Por outro lado, se a experiência da Tríade tiver valor, os Cinco podem interceder e colocar o ser no ciclo de renascimentos. Trincas de Artefatos apropriados ao estágio de desenvolvimento são designados, que nada mais são do que a manifestação física da Tríade, e um novo renascido surge. Há perda parcial ou total das experiências anteriores na primeira morte.

Posteriormente, quando um renascido morre, entra no estado de Entre-morte, que é o intervalo entre a morte e a nova encarnação ou ciclo. O ser cai indefinidamente, numa dimensão fora do tempo, vendo cenas de sua vida, sofrendo e aprendendo. Obtém-se a inteligência para novos combates e estratégia para vencer o algoz, o causador da morte.

Tríades livres de forma física trabalham em seus Nós com os materiais dos loots enviados através dos espelhos. Cada parte da Tríade cuida de um aspecto: espírito, as formas de ataque; corpo, a defesa e modos de absorção de energia; mente, agrega o conhecimento das características de cada inimigo enfrentado nos livros do Saber. Após o término dos trabalhos e considerações, o trio se une, tocando-se e desaparecendo.

Na volta das mortes, o corpo físico perde aparência de vivo devido a desestruturação do DNA. Mutações podem ocorrer se mortes forem muito frequentes em um curto espaço de tempo. Há a consolidação dos conhecimentos sobre interações e lutas contra os inimigos e ambiente, além da obtenção do poder de controlar as criaturas derrotadas. Artefatos recebem seus upgrades, que são a manifestação física da Tríade, usando loots, minérios, plantas, animais e/ou suas partes, objetos infundidos com magia ou relíquias.

Se a intensidade dos combates for muito alta, pode acontecer a Obliteração. Na obliteração, o elo formado entre o ser e as tríades é rompido. A criatura é enviada para outro reino (um dos 13), começando nova vida, sem lembranças claras de quem era. Nova Tríade e artefatos são designados. A Tríade obliterada volta para seu Nó e aguarda por uma nova designação por parte dos Cinco.


Inocência perdida III – A transformação

Algumas ligas metálicas têm a rara capacidade de absorver e redistribuir energia quando em contato com estruturas orgânicas, formando ligações de força forte, mediadas por glúons. Uma vez conectadas, não eram facilmente separadas, exigindo uma grande quantidade de energia para tanto. Além disso, se compatíveis com o elemento base da criatura, há uma melhora significativa nas tríades. Quírons, ferreiros, feiticeiros e alquimistas buscam sempre obter combinações que lhes favoreçam, mas é um processo incerto e arriscado, sujeito à rejeições que chegam a causar necrose da pele e carne.

Por sorte ou azar, o meio-elmo era compatível com a menina, que passou a se beneficiar do material. Pouco a pouco, foi se tornando mais ciente, mais perceptiva, mais forte. Percebia que agora podia absorver a energia dos abusos infligidos. Escondida, passou a ler livros da biblioteca de Krakas, aumentando suas habilidades. Toda malícia e toda maldade agora eram seu alimento. Logo teria a sua vingança. – Oh, sim. Oh, sim – repetia baixinho.

*

Toda chegada da lua cheia era comemorada com grandes festas no lupanário. Vários eventos aconteciam, e diversas fantasias eram atendidas, beneficiadas e possibilitadas pela energia fria e passiva que o astro emanava. A extração de Vis Vitalis era particularmente favorecida no dia, quando eram realizados sacrifícios de criaturas vivas, absorvendo e cristalizando a energia do ser. Certa vez, um cliente solicitou um cristal puro, de origem humanoide, que foi obtido pela extração de um feto de uma gestação indesejada. Lucro duplo, pensou Krakas, que fora incumbido de dar fim à vergonha que um pastor influente poderia ser submetido. No entanto, o cliente morreu antes de reclama-la, e a joia foi guardada separadamente das outras, numa caixa preta e feia. – Má sorte – dizia o supersticioso centauro.

Naquela lua, o local estava particularmente cheio, repleto de figuras importantes da cidade. A alta e podre sociedade reunida para celebrar seu poder e influência. Orgias coletivas eram comuns, com todos entretidos e se deliciando nos prazeres artificialmente aumentados que as bebidas, comidas e músicas oferecidas pela casa propiciavam. Todas as sensações eram ampliadas e não havia limite nem barreiras entre os participantes. Tudo era válido e tudo era pouco.

Sabendo que a vigilância nos aposentos de Krakas seria menor, a menina enganou o guarda, dizendo que o mestre o havia chamado. Dentro do cômodo, flashes de torturas e tormentos sofridos ali vieram à sua mente. Um loucura interna se agitou. – Oh não, ainda não. Não, não – repetia par si – Ainda não. Vasculhou o lugar até encontrar o mecanismo que abria uma porta secreta que dava acesso ao cofre. Ali dentro, encontrou diversas armas, escudos, armaduras, rolos de tecido, lingotes de platina, niobium e outros metais que desconhecia; jarros com vinhos finos, ervas e temperos exóticos; perfumes e cremes com aromas extravagantes e pungentes. No entanto, o que procurava eram os cristais. E havia muitos deles, de diversas cores e formatos. O meio-elmo pulsava, ressonando com os tesouros guardados ali. Ele queria tudo, mas ela queria muito mais.

O pouco conhecimento que obteve foi suficiente para começar o processo: pegou um cristal qualquer e o posicionou em frente à testa usando o polegar e o indicador das duas mãos. Ficou um tempo assim, até sentir que ele estava flutuando. Depois disso, numa fração de segundo, ele chocou-se contra o meio-elmo, quebrando em uma poeira fina que logo foi absorvida. A menina sentiu o impacto, mas gostou da sensação. – Oh, sim! Oh, sim! OH, SIMMM!!! – soltou, com uma voz mais forte e grave.

Os primeiros cristais absorvidos apenas curaram seu corpo, deixando-o mais forte. Sentia que sua mente estava mais afiada, que aprendia coisas novas a cada vez. Depois, a situação começou à sair do controle: batia os cristais no meio-elmo de forma bruta, como um sedento bebendo água desajeitadamente. Foi crescendo em tamanho e massa muscular; os braços esticaram e ficaram grossos; garras cresceram de suas unhas; de sua pele saíram escamas afiadas. A cada absorção, uma mudança física diferente. Apenas a cabeça permanecia do mesmo tamanho, confinada no meio-elmo, que agora brilhava com cores diversas. Tudo na sala tremia e caía no chão. No pavimento superior, Krakas percebeu que alguma coisa estava errada.

Quando já havia acabado com quase tudo, a menina, que não era mais menina agora, parou por um instante, sentindo uma estranha atração, com a cabeça virando contra sua vontade. Fixou o olhar em uma caixa preta e feia, que ressoava com o meio-elmo. O que quer que estivesse ali dentro ela precisava obter. Era um chamado.

Nesse meio tempo, o quíron já havia mobilizado um grupo de guardas e servos para averiguar o que se passava. Tarde demais. O que testemunharam foi o nascimento de uma besta descontrolada. Viram um ser segurando um cristal vermelho em frente à sua testa, que logo se chocou contra a cabeça, gerando ondas de energia palpável no ambiente. O corpo se contorceu e os membros mudavam de forma à todo instante. Lembranças de quem gerou o cristal. Um urro grave e desesperado ecoou na sala. Aquele último absorvido era de seu feto, filho de seu irmão, concebido na presença do filhote morto de uma águia branca.

Neste mesmo instante, um menino acordava de seu longo sono.


Leia o desfecho da história em Justiça Inexorável – Parte 2

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