Imortal, amortal e atemporal

imortal
Dragões são imortais?

O desejo de superar a morte e ter vida imortal acompanha a história do homem desde seu início. A busca pela fonte da juventude, poço de Lázaro, Santo Graal, elixir da vida eterna ou algo que o valha, sempre instigou aventureiros, alquimistas, cientistas e escritores.

O termo imortal é o mais conhecido, sendo empregado de diversas formas diferentes. No entanto, tem mais dois que são parecidos, mas fundamentalmente distintos.

Todos os três termos são abstrações, ou seja, construções mentais para explicar eventos imaginários, pois não há como serem validados na prática. Escalas de tempo muito longas são estranhas à percepção cotidiana.

Vejamos os conceitos de cada um dos termos para depois compara-los.

Imortais

Diz-se daquilo que não pode ser morto por qualquer meio possível. Aquilo que vive ou se mantem para sempre, dentro de uma escala temporal.

Mesmo se machucado, partido, desmembrado ou ignorado contínua a existir, podendo ser ideias ou seres.

Podem ter ou não uma origem, um início, mas estão presos conceitualmente ao que chamamos de tempo, mesmo que seja considerado infinito, ou seja, eterno.

Amortais

highlander
Corta a cabeça para ver se não morre.

Diz-se daquilo que tem a capacidade de viver indefinidamente, mas pode ser morto.

Os vampiros retratados em filmes são amortais e não imortais como são chamados erroneamente. Podem ser mortos por estacas, água benta e luz solar. Mesmo sendo ficção, servem bem para diferenciar os conceitos.

Highlander, o guerreiro imortal, podia ser morto, logo, deveria se chamar Highlander, o guerreiro amortal. Mas tudo bem, agora já foi.

Também estão presos ao tempo.

Atemporais

Diz-se daquilo que permanece relevante e atual mesmo com a passagem de longos períodos de tempo. Aquilo que não envelhece.

Um exemplo simples, mas útil: a letra da música “Que país é esse?” da Legião Urbana, lançada em 1987, continua servindo para descrever o Brasil atual, mesmo que numa escala relativamente pequena de tempo. Destaquei a “letra” por que a música provavelmente seria melhor digerida pelo populacho se cantada por alguma dupla com falsete na voz… que país é esse?


Outro exemplo é o dinheiro. Apesar das mudanças de formatos, materiais e valores, o conceito é o mesmo desde que foi criado há 5000 anos atrás: ser um meio para facilitar a troca de coisas e serviços entre pessoas.

Para o contexto, usarei outra possibilidade, embora mais fictícia do que as anteriores, que é designar seres, matéria ou energia que existam fora do tempo. Difícil até para imaginar. Pode ser aplicada para divindades ou para condições pré Big Bang. Altamente especulativa. Leia mais sobre o assunto no post a escala de Kardashev.

imortal criador de universos
Criador de Universos

Vantagens, desvantagens e possibilidades

Imortais e amortais

Embora seja um sonho antigo da humanidade viver para sempre, sem sofrer com o decaimento físico do corpo, há alguns senões.

Objetivamente, não há nada conhecido comprovadamente imortal ou amortal. Me refiro à dados e evidências tangíveis, não experiências subjetivas que não podem ser replicadas. Estrelas e galáxias duram bastante tempo pelos padrões humanos, mas em dado momento explodem e se transformam.

O mais próximo que temos para cravar algo como sendo “imortal” é a energia, pois não pode ser recriada nem destruída, apenas transformada.

big bang
Big Bang: não era “Big”, não fez “bang” e nem teve luz.

Também não há evidências que confirme que determinada situação não possa ser eterna. Não há uma teoria que possa prever o futuro do universo (pode se contrair em um único objeto, expandir-se indefinidamente ou expandir-se tão rápido que rompa o próprio tecido do espaço-tempo).

Como exercício mental, consideremos os seguintes cenários com os humanos sendo protagonistas:

Pequeno grupo de imortais.

  • Desprezariam todos os mortais com suas pequenas vidas e dilemas temporários.
  • Seriam os dominadores do planeta, pelo conhecimento e pelos recursos acumulados.
  • Não teriam objetivo nem urgência para fazer qualquer coisa.
  • Sofreriam por infindáveis perdas de companheiros(as) mortais.
  • Dessensibilização de emoções e desejos.

Todo grupo é imortal.

  • Os recursos naturais se esgotariam, sendo necessário procura-los em outros planetas (para construções e não consumo, pois não morreriam de fome nem sede. Não precisariam ter sistema digestório).
  • Se não tivessem a necessidade de recursos naturais, tanto faz em que planeta viveriam.
  • Se gerarem filhos, não haveria espaço para todos viverem no planeta.
  • Se não gerassem filhos, como teriam nascido? Não haveria diferenciação entre machos e fêmeas, nem necessidade de órgãos reprodutores e, consequentemente, sexo.
  • Não haveria disputas, nem progresso, nem desenvolvimento.
  • Não seriam mais humanos.
  • Utopia imaginada por certas correntes religiosas, onde os “escolhidos” viveriam em um paraíso e os “condenados” no inferno eternamente. Uma existência média de 70 anos definiria o destino final por eras sem fim?

Emergente grupo de amortais.

  • Considerando os atuais avanços biotecnológicos, é uma questão de tempo até que a morte seja eliminada. Morte por envelhecimento de tecidos e órgãos é vista como um problema técnico e não necessariamente intrínseca ao reino animal.
  • Os humanos aprimorados, os que tivessem acesso à essa tecnologia, seriam os mais ricos e, muito provavelmente, a manteriam para si, gerando um abismo entre a espécie (ou a criação de uma nova).
  • Viveriam numa absoluta paranoia, com medo de serem mortos. Não teriam mais “morte morrida” mas ainda estariam sujeitos à “morte matada”.
  • Elite poderia varrer a massa de mortais para terem mais recursos naturais e evitar conflitos.
  • Poderiam viver fora de um corpo, com a consciência transferida para outro meio físico de armazenamento e processamento.
  • Acha difícil de acreditar? O Smartphone de alguns é como uma extensão do corpo, aprimorando e acrescentando possibilidades que a mente humana não consegue lidar. Em breve, estarão incorporados em forma de implantes e próteses.
  • Não seriam mais humanos, mas seres híbridos.

Quanto aos atemporais:

  • É contra intuitivo pensar em algo ou algum evento acontecendo fora do tempo. Não ter antes ou depois e tudo ocorrer de uma vez é um exercício mental complexo.
  • Um deus que sempre existiu e sempre existirá, que sabe tudo o que aconteceu e o que acontecerá, sempre gera as mesmas dúvidas: como pode não ter um início? Como sabe de tudo que existe para se saber? Não há mais nada que possa aprender? O universo e nossas vidas seriam como um filme, cujo final já está definido? E porque agora e não antes ou depois? O que poderia ter gerado a necessidade de tal criação? Perguntas sem resposta.
  • As atuais leis da física que conhecemos não contemplam situações onde não exista tempo. As equações apresentam valores absurdos e incoerentes quando tenta-se explicar o ponto zero do Big-bang. Um milionésimo de segundo já é suficiente, mas zero não (uns acreditam que o limite seja tempo de Planck, que é 10−43 segundos).
  • Ideias podem ser consideradas atemporais, embora atreladas aos meios que as preservem e lhes dê significado. Quando não houver quem as entenda, morrerão.

Resumindo:

Imortais não podem ser mortos de forma alguma. Existência vazia de propósito e sem urgência para fazer nada. Perda de sentimentos. Fisicamente impossível, pois nada conhecido é eterno.

Amortais conseguiriam viver indefinidamente, mas podem ser mortos. Tecnologicamente possível em algumas décadas. Paranoia e medo para fazer qualquer coisa que possa por em risco o corpo físico. Possibilidade da consciência perdurar em outro meio externo.

Atemporais vivem fora do tempo, ou não são afetados por ele. Dos três conceitos, o mais especulativo e hipotético. Impossível de ser experimentado por humanos, a não ser como ideia.


E aí? Desejaria ser imortal ou amortal? O que faria no tempo livre? Comente.

2 thoughts on “Imortal, amortal e atemporal

  • 2 de julho de 2020 em 16:47
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    Gostei somente da música do legião rsrses e a moça virando uma taça de vinho.. sem dúvidas fazia o mesmo!! Rsrses

    Resposta
    • 3 de julho de 2020 em 22:26
      Permalink

      Bom, gostar de alguma coisa é melhor que coisa nenhuma. Tá valendo.

      Resposta

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