Fora do tempo e espaço

Fora do tempo e espaço

O Silêncio que precede a tempestade

…e com uma afinação quase perfeita, o golpe fora desferido. Como um raio, cortou o ar, rompendo a guarda, quebrando a defesa da longa espada de duas mãos, partindo a armadura ao meio. Camadas e mais camadas de matéria e energia e feitiços entrelaçadas foram separadas. A onda de choque que se seguiu assolou tudo o que havia ao redor por uma enorme distância. A força e velocidade aplicadas venceu o que a visão mais apurada poderia ver. Um rasgo no chão podia ser visto do céu. O vácuo formado tragou toda a terra, planta, água, ar e animal que ainda restava.

A devastação só não foi maior porque não havia muito mais o que ser destruído. Aquela luta já durava bastante tempo, e a superfície do planeta já estava comprometida. Fendas profundas vomitavam lava; tsunamis lavaram as cidades e vilas; icebergs se desprendiam e dançavam como cubos de gelo em uma bebida; furacões desfilavam furiosos. A vida estava condenada à perecer em um inverno nuclear.

69 x 70 vezes. Aquele desfecho era previsto, mas ainda assim havia esperanças. A força de vontade para encerrar o ciclo era imensa, porém insuficiente. – Só mais um pouco – pensou, enquanto pairava sereno frente ao formidável e conhecido adversário. A constatação de que a vitória não seria possível novamente abalou seus aliados que assistiam à distância e, perplexos pela aparente resignação, o acusaram de covarde, amaldiçoando-o, ali, no fim de todas as coisas. Todos os outros lutaram até o final, mas não ele. – Tão perto… – pensou, antes de desaparecer ao ser atingido pelo impacto. 69 x 70 vezes. E contando.


A tríade

O Nó que ocupavam era modesto, mas tinha todas as ferramentas que precisavam: forja, bigorna, martelos; cadinhos, potes de louça, infindáveis frascos com amostras de essências, ervas e partes de criaturas; cristais, amuletos e joias; uma vasta biblioteca empoeirada e um local para treinamento. Cada um possuía um quarto, que eram mantidos fechados. Na área comum, onde ficava o Espelho, em volta de um fogo no chão, conversavam:

– Não aguento mais essa merda! – esbravejou Um – Veja onde viemos parar! Está cada vez pior!

– Acalme-se, desta vez será diferente… – disse Três, sem muita firmeza.

– Você sempre fala isso. Talvez devêssemos parar de prestar atenção no que você diz. – Retrucou Um, com ironia.

– Um tem razão, Três. Você disse a mesmo coisa nas últimas… 100 vezes. – Disse Dois, com uma voz cansada. – Viu alguma coisa dessa vez? O que acha que mudou?

– Não perceberam? – questionou Três – o último golpe não foi perfeito…

– Como assim? Fomos derrotados. De novo. – disse Um, impaciente. – Perfeito ou imperfeito foi o suficiente para nos destruir. Está além da nossa capacidade. Nunca vamos conseguir.

– Percebi a ressonância desarmônica – comentou Dois, embora não soubesse o que fazer com a informação. – Como isso pode nos ajudar?

– É a abertura que tanto esperávamos. – respondeu Três – Enqui foi displicente, superconfiante na vitória. Podemos usar isso à nosso favor.

– Claro! Está cansado de nos derrotar! – Disse Um – Aquele último hospedeiro nos envergonhou. Não sei de onde você tira essas ideias. Ele travou no instante final.

– Será mesmo? – Arguiu enigmaticamente Três – Me parece que ele sabia o que estava fazendo. Além disso, sabe muito bem que não sou eu quem faz a escolha.

– Acha que ele recebeu o golpe de propósito? – Questionou Dois.

– Não sei ao certo ainda – respondeu Três – De qualquer forma, o tempo de voltarmos se aproxima. Aprontem-se. Os Cinco estão esperando pelo nosso retorno.


fora do tempo e espaço

Entrando na toca do coelho

A queda parecia não ter fim. Apavorado tentava se agarrar em algo, mas só havia o vazio. – Então isso é a morte? – divagava em pensamentos. Imagens e paisagens desconhecidas passavam pelos seus olhos enquanto caía. – Que raios de lugar é esse? Como saio daqui? – Em certo ponto, viu-se de longe, caindo em uma poça com líquido amarelento. – Não! Cuidado! – gritou em vão, enquanto seu corpo era puxado para baixo por estranhas raízes. Não era como uma memória, mas uma visão.

E tão subitamente como começou, terminou. Um buraco negro se abriu no meio do nada, com bordas irregulares de luz e névoa, girando como um vórtex.

Sentiu o impacto quando o chão veio ao seu encontro. Não se lembrava de quase nada, embora intuitivamente soubesse que aprendera uma experiência nova. De alguma forma sentia-se mais sábio e preparado, mesmo pelo pouco recordasse.

Um pássaro agourento, que preguiçosamente se empoleirava num ramo seco de uma árvore, foi a única testemunha a ver um portal se formar, paralelamente ao chão, numa altura de uns dois metros aproximadamente, e um corpo frágil e magro se esborrachando no solo. O som abafado da queda não o fez sair do lugar.


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