Esquizofrenia: perguntas e respostas

Você já deve ter ouvido falar em esquizofrenia ou que alguém é esquizofrênico, mas sabe o que realmente é, os tipos e sintomas? Vem que eu te guio.

esquizofrenia
Perda de contato com a realidade

O que é esquizofrenia?

A esquizofrenia é uma doença psiquiátrica endógena, (ou seja, criada de dentro para fora) que se caracteriza pela perda do contato com a realidade. A pessoa pode ficar fechada em si mesma, com o olhar perdido, indiferente a tudo o que se passa ao redor ou, os exemplos mais clássicos, ter alucinações e delírios.

É um transtorno mental grave que interfere intensamente no modo como a pessoa pensa, sente e se comporta socialmente. Essa desestruturação psíquica apresenta sintomas como dificuldades no raciocínio e alterações no comportamento como indiferença afetiva e isolamento social.

Uma das características do delírio, aliás a que o diferencia do erro, é que não se consegue removê-lo com contra-argumentação lógica. A convicção é absoluta e tentar dissuadi-lo, é inútil. Ouvir – “Imagine, você não está sendo perseguido. Você está imaginando coisas” -, basta para acreditar que está diante de mais um de seus perseguidores, de alguém que faz parte do complô armado para destruí-lo. É uma situação complicada porque, se concorda com o acometido, reforça a crença; se nega, perde-se a janela da confiança para ajuda-lo.

Sintomas comportamentais, neurológicos e cognitivos:

  • Alucinações: a mais comum é a de ouvir vozes, sendo que muitas pessoas esquizofrênicas conversam e fazem atividades com essas vozes.
  • Delírios: muitas pessoas com essa doença têm a certeza de que são alvos de alguma perseguição ou espionagem.
  • Pensamentos desordenados: por causa das alucinações e delírios, muitos doentes têm dificuldades em organizar seus pensamentos e ações, o que também interfere na comunicação com as pessoas.
  • Distúrbios do movimento: podem apresentar movimentos desordenados ou agitados de repente e sem motivo aparente.
  • Não expressar afeto: dificuldades para demonstrar a empatia, mas não significando que não tenham sentimentos.
  • Perda de prazer na vida cotidiana: reduz a intensidade das sensações agradáveis por realizar alguma tarefa.
  • Dificuldade em iniciar e manter atividades: não é preguiça. Para essa pessoa começar qualquer atividade torna-se difícil. Muitos escolhem atividades passivas, por não exigir grande esforço ou raciocínio.
  • Compreensão e fala: pensamentos e a comunicação podem perder uma lógica quando ditas pelo esquizofrênico. Nesses casos, para quem convive, é muito importante a tentativa de compreensão, para demonstrar apoio e acolhimento.
  • Tiques faciais.
  • Movimentos mais desajeitados ou estabanados.
  • Movimentos bruscos e descoordenados.
  • Piscar dos olhos mais frequentes.
  • Desorientação espacia.l
  • Suicídio: acontece na fase aguda e na crônica. É preciso estar atento a recorrência de reclamações por parte do esquizofrênico em relação às vozes e sintomas da doença. O desconforto é tamanho que preferem se livrar dele tirando a própria vida.
  • Agressividade: esse tipo é um pouco mais raro, porém acontecem surtos com ataques de fúria e reações impulsivas.
  • Repetições: por serem reativos a mudanças, é comum apresentarem manias e hábitos repetitivos, de higiene e alimentação muito semelhantes a pessoas com Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC).
  • Atividades solitárias: conversas solitárias e risos imotivados, são comuns e acontecem de forma involuntária e automática por conta das vozes que o esquizofrênico escuta.

Até os anos de 1950, os esquizofrênicos eram simplesmente trancados em hospícios e tratados com loucos, distantes do convívio social que é saudável para recuperação. Somente depois da descoberta de antipsicóticos, e um entendimento melhor da doença, é que puderam ter o tratamento mais adequado visando a reintegração.

Quais são os tipos de esquizofrenia?

Esquizofrenia simples

Apresenta transtornos de personalidade levando ao isolamento, dispersão e a indiferença de afeto. É comum que tenha mais sintomas negativos do que positivos. Isso tende a ser um tipo com evolução mais rápida.

Paranoica ou esquizofrenia paranoide

É caracterizada pela fala confusa e a falta de emoção, podendo apresentar com grande frequência quadros de alucinação, perseguição e delírios.

Hebefrênica ou esquizofrenia desorganizada

É percebido um comportamento mais infantil, respostas emocionais inadequadas e pensamentos sem sentido. A esquizofrenia tipo hebefrênica é a mais grave, pois desde o início apresenta os sintomas chamados negativos, que são embotamento afetivo, isolamento social e perda de interesse, motivação, lógica e iniciativa.

Catatônica

É o tipo mais raro e se caracteriza por um quadro de apatia, que pode levar o esquizofrênico a ficar por horas em uma mesma posição ou ter seus movimentos e fala reduzidos. Estupor ou agitação com perda de contato com a realidade, com algumas posições parecerem desconfortáveis. Pode envolver também episódios de violência, alta sugestionabilidade e/ou alucinações vívidas.

Residual

É mais comum em pessoas com histórico de transtornos mentais. Ela pode manifestar alterações no comportamento, emoções e na interação social. Não com a mesma frequência dos outros tipos.

Indiferenciada

Apresenta traços dos outros tipos de esquizofrenia, porém não se encaixa em nenhum deles. Apesar disso, pode demonstrar qualquer uma das ações já citadas.

Quando se manifesta a esquizofrenia?

A esquizofrenia é uma doença mental crônica e incapacitante, que geralmente se manifesta na adolescência ou início da idade adulta, entre 20 e 30 anos de idade. Sua frequência na população em geral é da ordem de 1 para cada 100 pessoas. No Brasil, estima-se que há cerca de 1,6 milhão de esquizofrênicos.

Os sintomas costumam aparecer no início da segunda década de vida. Nos homens, em média, entre os 20 e 25 anos de idade, e nas mulheres, mais tarde, dos 25 aos 30. Quando começarem a aparecer, é importante que a família procure um psiquiatra.

Qual é a causa da esquizofrenia?

A causa exata é desconhecida. Fatores psicológicos ou ambientais podem ser gatilhos para o início das alterações cerebrais latentes da doença, advindos de traumas durante e pós a gravidez, ou abusos na infância e adolescência. Também são atribuídas causas genéticas, principalmente com histórico familiar da doença. Várias substâncias químicas, denominadas de neurotransmissores, estão alteradas no cérebro do esquizofrênico, principalmente dopamina e glutamato.

Tem exame para constatar esquizofrenia?

Exames de ressonância magnética podem identificar distúrbios psicológicos. A dificuldade em iniciar tratamentos psiquiátricos ou psicológicos consiste, muitas vezes, em diagnosticá-los corretamente.

Na esquizofrenia, alguns mudanças comportamentais podem ajudar a identifica-la:

  • Sentimento constante de estar sendo vigiado
  • Queda drástica de desempenho nos estudos ou trabalho
  • Mudanças visíveis na higiene pessoal e na aparência
  • Sentir profunda indiferença diante de situações importantes
  • Isolamento social
  • Respostas irracionais, como medo ou raiva da família e amigos
  • Comportamentos que parecem estranhos e inapropriados em situações sociais
  • Ver ou ouvir coisas que não existem
  • Dificuldade de dormir, insônia e de se concentrar

No entanto, existe um exame de sangue capaz de diagnostica-la, bem como a bipolaridade. Metodologia desenvolvida por pesquisadores brasileiros permite identificar, com base em um único exame de sangue, as duas doenças psiquiátricas com sintomas semelhantes.

O objetivo é encontrar diferentes padrões de metabólitos e associá-los à um dos transtornos. Para isso, coloca-se as amostras de soro sanguíneo sob efeito de um campo magnético. Com a análise da ressonância magnética nuclear de prótons é possível detectar todas as variações (picos) deles e compara-las com uma base de dados de referência.

O que fazer para ajudar pessoas com esquizofrenia?

As alucinações mais comuns na esquizofrenia são do tipo auditivas, seguidas quase que raramente pelas alucinações visuais. Durante as alucinações auditivas, o paciente pode escutar vozes, sem nenhum estímulo externo a ele, o que é conhecido como alucinação audioverbal.

O tratamento é realizado através de medicamentos antipsicóticos e da terapia, sendo essencial um acompanhamento multidisciplinar. Infelizmente, não é possível a cura da doença, e sim a diminuição dos sintomas, principalmente dos positivos.

Formas de ajudar quem tem o distúrbio:

  • Aceite a doença e suas dificuldades.
  • Seja realista em relação ao que você espera da pessoa que tem esquizofrenia e de você próprio.
  • Tenha senso de humor.
  • Procure fazer o melhor para ajudar a pessoa se sentir bem e aproveitar a vida.
  • Preste a mesma atenção às suas necessidades e mantenha a esperança.

Quem tem esquizofrenia pode ter filhos?

A esquizofrenia não torna a mulher infértil, então pode engravidar sim. É fundamental que a gestação seja planejada e que se ajustem as medicações para aquelas que são seguras para o feto.

Quem sofre de esquizofrenia pode trabalhar?

Pessoas com esquizofrenia podem trabalhar – mesmo que tenham sintomas. Vários estudos já mostraram que pessoas com doenças mentais maiores sentem-se melhor quando trabalham. A capacidade de manter um emprego não está necessariamente relacionada à gravidade da doença.

A esquizofrenia paranoide pode ser considerada um transtorno enquadrado como deficiência psicossocial para fins de lei de cota. Desde que esteja em tratamento, um paciente esquizofrênico pode ter uma vida normal (estudar, trabalhar, casar).

O que pode acontecer se a esquizofrenia não for tratada?

Sem tratamento, a esquizofrenia piora a cada crise, caracterizada principalmente pelos sintomas psicóticos, como alucinações visuais e auditivas, sensação de ser constantemente perseguido ou ameaçado por outras pessoas.

Quais são os direitos legais de quem tem esquizofrenia?

Pacientes esquizofrênicos têm garantidos por lei diversos direitos e atendimentos, como assistência social, psicológica e reabilitação. Eles também têm acesso gratuito a vários tipos de remédios antipsicóticos, que são os mais eficazes no controle da doença.

Quem sofre de esquizofrenia pode ser preso?

No caso de paciente com esquizofrenia, há possibilidade da ocorrência de comprometimento de seu juízo de realidade, devido à presença de sintomas psicóticos. Desse modo, se o paciente cometer algum ato ilícito, motivado diretamente por tais sintomas, ele será considerado inimputável.

Se uma pessoa for comprovadamente esquizofrênica (ou tiver outro quadro psicótico) e, comprovadamente, agredir ou matar em função de seus delírios, alterações de impulsividade ou ordens dadas por suas alucinações, pode não ser punida em função de sua incapacidade para decidir independentemente seus próprios atos.

Há aqueles que fingem ter a doença, apenas para fugir de punições mais severas.

Quem tem esquizofrenia pode beber cerveja?

O consumo de álcool não é indicado em nenhuma quantidade por pessoas esquizofrênicas. Além da interação medicamentosa com diversos remédios, as bebidas podem influenciar tanto na aderência ao tratamento, como na melhora dos sintomas.

Quanto tempo leva para a pessoa voltar ao normal de um surto psicótico?

Nos transtornos psicóticos breve – os sintomas duram pelo menos 1 dia, mas não mais que 1 mês. Geralmente ocorre em resposta a um evento estressante da vida. Depois que os sintomas desaparecem, eles podem nunca mais voltar.

O surto geralmente dura algumas semanas e pode ser encurtado de acordo com a medicação administrada. Os remédios também podem impedir um surto ou torná-lo menos grave se ocorrer.

Quanto tempo vive uma pessoa com esquizofrenia?

Os pesquisadores descobriram que pessoas com transtorno bipolar tem uma redução de 9 a 20 anos na sua expectativa de vida, de 10 a 20 anos em casos de esquizofrenia, 9 a 24 anos quando há abuso de álcool e outras drogas e de 7 a 11 anos em casos de depressão recorrente.

Esquizofrenia como obsessão espiritual

Como curiosidade e sem comprovação ou aval cientifico, há alguns que acreditam que a esquizofrenia pode ser uma obsessão espiritual, ou seja, entidades externas com uma forte ligação com o individuo, malignas ou benignas, cientes ou inconscientes, causando prejuízo para ambas as partes. Pode ser um espírito vingativo ou algum ente querido com dificuldade de desapego.

Pela chamada “lei da atração”, estados mentais ou desejos comuns entram em sintonia e ressonância, fortalecendo o elo.

A clarividência ou clariaudiência, atribuídos aos dons (ou maldições) mediúnicos, seriam os chamados delírios e alucinações.

Como dito no começo, muitos esquizofrênicos eram trancados em hospícios, um ambiente altamente tóxico, segundo as correntes espiritualísticas, que diminuíam as chances de recuperação do individuo por si só. Voluntários, em um trabalho de caridade, tentam distinguir no meio de tantos, quais podem estar acometidos de obsessão e ajuda-los a mudar o padrão mental que os une com a entidade. Assim, acreditam que é um problema espiritual e não físico. Muitos são resgatados com sucesso.

Essa abordagem pode ser analogamente associada com a ação dos antipsicóticos em relação a quebra do padrão mental, através de alterações na química cerebral.

De qualquer forma, a mera iniciativa de ajudar os doentes deve ser incentivada, mesmo havendo discordância entre os métodos.

Esquizofrenia como o novo normal

Aqui é meramente um especulação do autor, tendo em vista o atual comportamento das pessoas com o uso e abuso de meios de comunicação à distância, redes sociais e dependência de aparelhos eletrônicos.

Distinguir um esquizofrênico de uma pessoa “saudável” na rua pode ser difícil hoje em dia. Os dois andando e conversando sozinhos, gesticulando, rindo… a diferença é que um usa fones de ouvido ligado à um Smartphone, enquanto o outro não. Cinquenta anos atrás, os dois seriam vistos como loucos. A diferença é que hoje achamos com quem estamos falando.

Substituímos uma pessoa por uma versão eletrônica dela, o aparelho; conversamos com estranhos que nunca vimos, cuja unica referência pode ser uma foto, muitas vezes altamente filtrada e escolhida a dedo para oferecerem a melhor versão de si mesmos. Fazemos suposições, criamos fantasias guiadas por preconceitos, que podem estar bem distantes do que é real. Ora, se esquizofrenia é um descolamento da realidade, por que o citado acima também não pode ser classificado com tal?

Com o covid-19, o afastamento social, diminuição da empatia e a paranoia de achar que a pessoa ao lado na fila pode estar contaminada, poderiam se encaixar em quadros de esquizofrenia. Talvez um tipo novo. Como reflexão, é muito tênue a linha que separa os doentes dos “normais” (se é que existe tal coisa).


Distúrbio bem debilitante, sem dúvidas. Conhece alguém que sofre desse mal? Comente.


Fontes: zenklub, UOL, entendendoesquizofrenia

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