Diretor geral – precisa-se

Processo seletivo de diretor geral

Convido-os a participar de um hipotético processo seletivo para o cargo de diretor geral em uma grande empresa.

diretor geral
Reconhece a empresa?

A empresa

Empresa de grande porte, com bastante espaço para ampliações, excelente localização, com vasta disponibilidade de recursos naturais e grande potencial de crescimento, necessita de diretor geral para melhorar os processos de gestão e reestruturação de cargos.

Cultura da empresa

Ambiente informal que privilegia a criatividade e meios alternativos de atingir resultados. Valorização da inteligência emocional, sobretudo a interpessoal, e capacidade de gerar acordos ganha-ganha entre os diversos setores. Células de produção tomam as próprias decisões, com regras flexíveis de gerenciamento e de auditorias internas.

A irreverência e liberdade de expressão dos colaboradores é uma de suas marcas registradas. Todos têm o direto de opinar sobre todos os assuntos ligados à empresa, mesmo não sendo de sua alçada ou especialização.

Política de contratações do RH favorece a diversidade, estimula e permite que todos possam se candidatar aos cargos mais elevados, mesmo não tendo a capacitação necessária. Todos podem participar. Gente cuidando de gente.

Diversas agremiações são permitidas, cada uma com seus próprios valores e interesses na gestão da empresa. Apesar do estatuto não privilegiar crenças religiosas, há concessões para líderes de colaboradores que defendam os princípios da fé e honestidade, isentando-os de alguns descontos no salário.

A empresa oferece excelente pacote de benefícios, incluindo remuneração acima da média de mercado, auxilio moradia, vale transporte (carro com motorista particular e viagens de avião), auxilio uniforme, plano de saúde integral e carga horária reduzida e flexível, sem desconto na folha de pagamento.

auxilio uniforme
Auxílio uniforme.

Para não concentrar todas as decisões no diretor geral, outros 500 membros são contratados para ajustar o código de conduta e mais outros 80 para validação, cada um suas respectivas equipes de trabalho.

Processo seletivo

O código de conduta da empresa é o símbolo máximo dos direitos e deveres dos colaboradores. É impensável altera-lo significativamente, pois afetaria diversos cargos e pessoas que meritocraticamente alcançaram tais colocações.

Não é necessária qualificação para os cargos mais importantes. Formação acadêmica, cursos de aperfeiçoamento e de idiomas, experiências anteriores na função não são relevantes. O código de conduta permite a liberdade e o acesso para todos, inclusive do diretor geral.

Ainda mais, a empresa disponibiliza verba dos acionistas para que os interessados se preparem para o processo seletivo, tornando-os mais atraentes e populares, aumentando suas chances de contratação.

É desejável que os interessados apresentem planos de ação para as diversas áreas da empresa. Alguns são bem elaborados; outros bem sucintos, apenas pregando a mudança da gestão atual, sem mais detalhes. A maioria dos planos não são lidos ou entendidos, e é mais uma formalidade do que uma necessidade.

Em algumas propostas, sugerem que a segurança da empresa é falha e que é necessário que os colaboradores comprem e portem armas para se defender dos colegas, em caso de algum conflito. Desta forma, estimula-se a auto-confiança e aumento da autoestima, desonerando a empresa gastos gerenciais de crises.

A participação nas dinâmicas de grupo não é obrigatória e os interessados não precisam responder o que lhes é perguntado, podendo usar o tempo das entrevistas para falarem o que quiserem.

diretor geral
Aqui, não precisa nada disso. Escrever o nome já está bom.

Se fosse uma empresa de verdade…

Para quem trabalhou ou trabalha no setor privado, os fatos acima soam mais do que absurdos. São surreais. Como um empresa assim poderia prosperar, aumentar a produção e melhorar os serviços? Gerar dividendos para os acionistas? Simples, não poderia. É insustentável.

Por que para cargos importantes em empresas privadas (e em menor escala, nos concursos públicos) exige-se tanto dos pretendentes, enquanto para presidente, senadores e deputados não? Efeitos colaterais da democracia e liberdades contidas na constituição? A culpa é de quem os elege ou do processo seletivo?

  • Se fosse uma empresa de verdade, um diretor geral qualificado saberia como usar técnicas de gestão modernas, reduzindo gastos, redimensionando e redistribuindo os funcionários.
  • Enxugaria o administrativo, eliminando gerencias e cargos redundantes ou que nada agregam.
  • Aproveitaria melhor os recursos disponíveis, aumentando a produção.
  • Investiria em treinamento e qualificação, gerando colaboradores que realmente vistam a camisa da empresa, invés de crítica-la.
  • Melhoraria refeitórios, banheiros e enfermarias para aumentar o bem estar das pessoas, com consequente reflexo positivo na produtividade.
  • Revisaria acordos com fornecedores e clientes, para diminuir custos de compras e melhorar as margens de venda.
  • Lideraria pelo exemplo, inspirando confiança e respeito dos colaboradores (e usaria EPI’s).
  • Mudaria a cultura da empresa de cima para baixo, criando engajamento entre todos os setores.
máscara
É EPI que fala?

Reduzir o Estado à uma empresa pode ser ingênuo. É muito mais complexo do que isso. É uma herança cultural que se perpetua.

No entanto, é decepcionante, entre mais de 200 milhões de pessoas, não haver lideranças sérias, com propostas factíveis e com coragem para fazer o que precisa ser feito. Não temos uns 1000, 2000 patriotas honestos, capacitados, comprometidos e dispostos a cooperar entre si para fazer a diferença? Eu não seria um deles (por falta de capacitação), mas cumpriria a parte que me fosse atribuída.

O modelo de gestão, com as regras atuais, simplesmente não funciona, não tem como funcionar do jeito que está. Apesar do apelos e protestos (desorganizados) da população, a mudança não da para ser feita de baixo para cima, não no estado atual. É preciso admitir em voz alta que a sociedade brasileira não tem capacidade de escolher os próprios governantes.

Seria preciso um choque de gestão, diminuição de burocracias e instâncias para tomadas de decisões, revisão do “código de conduta” e suspensão temporária ou definitiva de alguns direitos indevidos. Um período maior para a implantação e assimilação de uma nova cultura, desmantelando e purgando de cima para baixo todos os níveis administrativos, deixando somente o que for necessário e eficiente. Diminuir o número de “agremiações”, uma vez que ideologicamente há pouco que as diferencie. Enxugar, como qualquer empresa séria faria.


Podem achar que é perigosamente parecido com uma extrema direita ou ditadura. Que o poder corrompe. Que mesmo em um grupo pequeno pode haver discordâncias sérias. Que direitos adquiridos são inalienáveis. Questionar os critérios de escolha dos representantes e quem os escolheria. Que mudanças assim geram desestabilização das instituições e afasta investidores. Que a democracia foi uma conquista que não se pode abrir mão. Mas só um lembrete: NÃO ESTÁ FUNCIONANDO!!!

Não está dando certo? Então mude!!!

Finalizando, para problemas extremos são necessárias medidas extremas. Como Einstein disse, é necessário mais energia para solucionar um problema do que para formula-lo. Não se faz omeletes sem quebrar os ovos. Quebrá-lo-emos então.


Tem alguma solução em mente para o problema? Comente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *