Animais de estimação e carência afetiva

preta
Quero passear

A posse de animais de estimação, ou domésticos, pelos humanos vem de aproximadamente 12 mil anos atrás, quando teve inicio a revolução agrícola. De nômades caçadores e coletores de vegetais, grupos humanos passaram a cultivar alimentos e criar animais para o abate e consumo, gerando os primeiros grandes assentamentos.

Neste processo, alguns tipos de animais foram escolhidos ou se adaptaram às condições dos vilarejos e disponibilidade de alimento. As funções eram mais utilitárias do que para entretenimento e companhia, como auxiliares na caça, proteção de propriedades, pastoreio de outros animais e controladores de pragas (como ratos).

No entanto, indícios arqueológicos apontam para um período ainda mais remoto, onde já havia um laço afetivo entre os homo sapiens os e cães (encontraram covas com ossos das duas especies, deliberadamente posicionados juntos). Acredita-se que os cães atuais descendem de uma raça extinta de lobos, e que foram eles que se aproximaram dos humanos, e não o contrário. Por questões de acesso à alimentação, era mais favorável para a espécie ficar próxima dos grandes primatas caçadores que possuíam métodos mais avançados de caça.

Alguns animais foram adotados por culturas como símbolos de representação de seus deuses.

deuses egípcios
Divindades com cabeça de animais.

Atualmente, em média, há mais animais de estimação do que crianças nos lares. Seguem alguns dados:

Números:

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O faturamento anual do varejo de produtos para animais de estimação gira em torno de U$125 bilhões, sendo 40% só no EUA. O Brasil vem em segundo com 5%.

No Brasil, o faturamento subiu de R$24 bilhões em 2013 para R$34 em 2018, sendo 47% para alimentação, 13% vendas de animais e 11% produtos veterinários.

Estima-se que o gasto médio mensal com cães fique em torno de R$300 e de gatos R$120, mas o valores variam de acordo com o tamanho do animal e a renda familiar.

Animais de estimação
Belos olhos, gatinha.

Cães – preferência nacional

No Brasil, os cães são os preferidos como animais de estimação. As raças, tamanhos e temperamentos variam imensamente, dependendo do perfil do dono, local e tamanho da moradia.

Ursa
Essa é a Ursa. Rindo ou achamos que está sorrindo?

Uns preferem os mais dóceis, enquanto outros escolhem os agressivos. O comportamento, no entanto, varia de acordo com as condições em que são criados os animais. Uns são mais suscetíveis ao adestramento e outros conseguem reter poucos comandos. Vai da natureza do animal e da habilidade de quem o treina.

Cães, diferente de gatos, perderam a habilidade se sustentar por si só, dependo muito dos humanos, seja por alimentação direta ou indireta (sobras nos lixos). Em alguns casos, podem caçar, mas no meio urbano que a maioria vive, não há presas. Algumas raças são tão pequenas que não poderiam enfrentar uma galinha ou um pombo. Isso pode explicar um pouco da fidelidade dos cães aos donos.

Relação afetiva com animais de estimação

Os cuidados e gastos com animais de estimação têm aumentado nas últimas décadas. Antes, tratados rudemente e com funções utilitárias, ou apenas para exibi-los ou ostenta-los, agora fazem parte das famílias, e recebem tratamentos diferenciados.

Egoísmo puro. Algum outro animal no planeta faz isso com os outros?

Porém, vale ressaltar alguns pontos negativos nessa relação:

  • Friamente, são animais cuidando de animais. Uma relação simbiótica, na maioria do casos, pois traz benefícios para as duas espécies.
  • Por questões culturais, o homo sapiens se auto declarou uma criatura superior aos demais animais, devido a capacidade única da consciência. A superioridade não é um fato, mas uma crença onde os humanos se colocam como o ápice de uma criação divina.
  • Há ainda a atribuição de sentimentos humanos para os demais animais, como amor, apego, raiva, rancor ou indiferença. Não passa de uma crença ou um desejo que os Pets sintam ou desejem o mesmo que humanos. Obviamente, necessidades fisiológicas, de auto preservação e socialização podem ser comuns, mas cada espécie lida à sua maneira. Cães têm sentimentos de cães, gatos de gatos e pássaros de pássaros. Não de humanos.
  • Apenas os humanos pensam sobre os próprios sentimentos e sentimentos dos outros animais. Um gato não pensa “ah, estou carente hoje, preciso de um carinho de meu humano”, nem um papagaio planeja “cadê meu humano? Quero mostrar a nova música que aprendi!” É uma antropomorfização narcisística achar que sentem o mesmo que nós humanos. Mais ainda, é uma carência.

O tratamento cuidadoso e laços afetivos exagerados com animais de estimação rivalizam ou superam os dados à algumas crianças. É um sintoma de uma sociedade doente, ansiosa, deprimida e egoísta.

  • Animais têm sentimentos porque possuem sistema nervoso e sensores para captar estímulos externos e transforma-los em informações úteis para sua sobrevivência e perpetuação da espécie. É instinto. É o mecanismo de recompensa cerebral em ação que os faz agir como agem.
  • Além da cognição, alguns animais têm inteligencias de diversos tipos e são capazes de perceber mudanças comportamentais ou de humor de seus tratadores. O reconhecimento de tais padrões oferece mais possibilidades de recompensas ou proteção contra ameaças.
golfinho
Antropomorfização de emoções animais
  • Animais de estimação tem ganhado mais relevância devido o fato das relações humanas estarem desgastadas ou serem insatisfatórias. É mais fácil lidar com animal canino, por exemplo, do que com um homo sapiens. É mais comodo, barato, poupa mais tempo, não te contradiz nem te crítica; não reclama se está mal arrumada, gorda, ou mal humorada. Não liga para nada disso. Não se importa se o seu humano é rico ou pobre, vai segui-lo por onde for.
  • Cruzamentos entre raças moldaram as diversas personalidades, ajustando-as conforme a necessidade do humanos.
  • Os animais de estimação não escolhem gostar ou preferem humanos por serem quem são; os humanos que é escolheram as espécies que satisfazem suas necessidades ou carências afetivas. Alguém em sã consciência deixaria os filhos brincarem com cobras venenosas, hienas ou crocodilos dentro de casa?
Dar água, comida e abrigo é cuidar bem?

Reação aos maus tratos

Um outro efeito nítido dessa relação desbalanceada é a reação exagerada aos casos de maus tratos com ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO. Claro que gera indignação. Empaticamente experimentamos um pouco da dor. Não é nada agradável de se ver e há um clamor por justiça. No entanto, aparentemente, gera mais comoção e repercussão do que se fosse com um humano ou outros tipos de animais. O valor da vida é mesmo bastante subjetivo.

Pessoas xingam, esbravejam, desejam a morte de quem causou o sofrimento ao indefeso animal. Depois, saem para comer feijoada, vão à rodeios e se reúnem para aquele belo churrasco. Se não ficou clara a ironia, bilhões de outros animais são criados em condições antinaturais apenas para serem mortos violentamente para saciar os bravos defensores dos irmãos caninos ou felinos.

No planeta, a somatória dos pesos de animais para abate é próximo de 700 milhões de toneladas, 300 milhões são humanos e apenas 100 milhões são de outros animais de médio/grande porte.

Resumindo:

  • Humanos homo sapiens também são animais.
  • Atualmente há mais animais domésticos do que crianças nos lares.
  • EUA são responsáveis por 40% dos gastos com animais de estimação no mundo.
  • Brasil é o país com maior número de casos de ansiedade e depressão do mundo.
  • Cães são os preferidos pelos brasileiros.
  • Animais em geral têm sentimentos, mas são específicos para cada espécie. Tendência humana a crer que são iguais aos que sentem.
  • Cães e gatos suprem necessidades afetivas das pessoas.
  • Pessoas preferem ter animais de estimação por serem mais fáceis de lidar do que com outros humanos.
  • Grande comoção e clamor por justiça em caso de violência com alguns tipos de animais.
  • Ignorância e esquecimento do sofrimento dos animais usados para consumo humano.

E você, o que acha? Acha que há uma inversão de valores? Comente.


Fontes: Abinpet, IPB mercado pet, Cachorros e humanos – Mercado de rações pet em perspectiva sociológica

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