Agência de estudos avançados Trisigma

Agência de estudos avançados Trisigma

A semente do mal

– E como vocês já devem saber, a energia não pode ser criada nem destruída, apenas transformada – repetia o instrutor mestre para a sala. – Energia cinética, potencial, gravitacional, eletromagnética, sonora, térmica, espiritual, mental, corporal ou qualquer outra que se defrontem: todas podem ser absorvidas e redirecionadas conforme a sua vontade, em qualquer situação…

-É, mas tem a Energia Escura, que aumenta com a expansão do universo… – sussurrou para ninguém o novo membro da equipe, quebrando o silêncio do concentrado grupo.

– Hum, temos uma visita especial, pessoal – disse o mestre – deseja compartilhar algo com o grupo?

– Não sou uma visita – retorquiu com nítido incomodo – Você, digo, o senhor deve ter recebido a comunicação da minha transferência pelo alto comando. Agente especial Set se apresentando.

– Claro. Set, que seja. – disse o mestre com desdem. – O que você dizia sobre a criação de energia?

Set corou envergonhado, mas prosseguiu – há indícios de que a expansão do Universo e o afastamento das galáxias é causado pela ainda não detectada energia escura.

– Indícios. Não detectada. Não parece muito promissor – disse o mestre ironicamente – Venha aqui até a frente.

O silêncio na sala parecia ter aumentado. Os outros alunos se acomodaram nervosamente em seus assentos. Sabiam como o mestre era temperamental quando desafiado. Set não tinha noção do que o esperava.

Colisão do antigo com o moderno

trisigma

A Agência de Estudos Avançados TrisigmaAEA Trisigma, ou simplesmente Trisigma, era uma organização privada que atuava acima dos governos mundiais, e visava aperfeiçoar e desenvolver tecnologias de ponta, baseadas no Heptavarium, além de treinar e condicionar novos agentes para missões especiais.

Não era vista com bons olhos por parte da população, que achava que controlavam e restringiam demais as aplicações naturais, tradicionais e pacíficas das Tríades. O fundador da Agência permanecia desconhecido, embora algumas teorias especulem que ele seja um antigo Fluente dissidente, devido ao grande poder e pressão que a organização exerce.

Depois da grande guerra, que devastou metade do planeta 200 anos atrás, a agência surgiu como uma solução para mediar e restringir o uso das energias primordiais, que estavam totalmente desequilibradas, de forma que foi aceita por vários países devido o modo rápido e eficaz que lidou com os excessos. Houve um período de “caça as bruxas”, quando foram relatados diversos desaparecimentos e abusos, mas, depois que a paz foi restaurada, a sociedade passou a fazer vista grossa.

Os fluentes, de um modo geral, tanto os equilibrados quanto os desequilibrados, foram culpados pela destruição e carnificina que ocorreu durante o último grande conflito, sendo alvos de diversas ações de contenção. Muitos foram obliterados, desligados de seus artefatos, tendo a morte definitiva, enquanto outros foram capturados e aprisionados. Desta forma, os fluentes sobreviventes vivem escondidos ou disfarçados entre a multidão como cidadãos comuns.

Apesar de altamente treinados e com boa capacidade de usar as Tríades, os agentes dependiam muito da tecnologia para o aprendizado e aplicações das técnicas em campo. Suas missões consistiam em investigar relatos de casos de seres com anomalias na Tríade, cooptando-os para a Trisigma como novos agentes, recolhendo-os para estudos, ou simplesmente para destruí-los, caso não fosse possível a utilização prática. Não era uma coisa boa entrar no radar da Agência.

O dojo

A sala de treinamento não era grande. Consistia de uma arquibancada semi-circular onde ficavam os agentes em treinamento, com suas respectivas estações de trabalho. Na frente, havia um dojo com decoração do Japão medieval, com alguns quadros, armaduras e racks com armas, como katanas, shinais, tonfas, bastões, lanças, machados, maças e outras de formatos estranhos. Em outra parte, numa prateleira moderna com iluminação indireta, havia os novíssimos visores de Tríade VT-5 de nova geração, mais leves e responsivos. No fundo, em uma grande tela de alta resolução, as instruções do curso eram apresentadas mas, mais do que isso, ela servia para mostrar os fluxos de energia fluindo pelo corpo durante os combates. Ao cento, um impecável tatame tradicional feito de palha de arroz.

Os uniformes variavam de acordo com as disciplinas apresentadas, mas todos tinham um importante diferencial que precisavam exibir: a tag de identificação e nível Trisigma.

As Tags servem para diferenciação hierárquica dentro da agência. Feitas de um tecido tecnológico de aramidas e grafeno, mostram, além da identificação pessoal, as barras dos níveis das três partes da Tríade: espírito, corpo e mente, o número do Ki (valor obtido de uma equação extraída do Heptavarium, decriptada pelo poderoso sistema de IA da agência) e o elemento base, um dos cinco existentes. Tudo isso para imitar e simular o que um verdadeiro fluente saberia instintivamente.

Por norma, o uso das tags é obrigatória, devendo ser colocadas no lado esquerdo do peito em qualquer vestimenta; nas horas livres, era usado no pulso, servindo como gadget multiuso, como comunicador e rastreador,por exemplo. No entanto, eram também motivo de ostentação e segregação.

O instrutor mestre, conhecido como “a Rocha”, vestia um quimono azul com uma faixa preta, enquanto Set usava um cinza claro de aprendizes com faixa roxa. Apesar de toda a caracterização da temática oriental, todos os estilos de luta, combate e artes marciais eram treinadas ali.

Os dois estavam um de frente ao outro, em posições para o embate. Seus visores VT-5 projetavam sobre suas cabeças os níveis dos Três, o número Ki e o elemento de cada um. “A rocha” era, por razões óbvias, Terra, e Set, Metal. Abaixo de tudo, uma linha continua indicava a afinação.

Set deu início com um sequência simples de golpes, facilmente defendidos pelo mestre. Jabs, diretos e cruzados. As barras das tríades oscilavam, encolhendo e expandindo conforme o uso da força de ataque, defesa e esforço mental. Set insistiu com mais velocidade, terminado em um uppercut, mas “a rocha” interceptou o golpe com um giro de corpo, agarrando o braço, jogando o oponente no chão, aproveitando o momentum do movimento. Set caiu pesadamente no tatame.

Para os olhos atentos, pôde-se ver a barra verde (“corpo”) do mestre diminuir devido à ação dos golpes, enquanto a azul (“mente”) aumentava pela absorção e canalização da energia cinética dos impactos. Na sequência, o fluxo energético excedente migrou para a vermelha (“espírito”), gerando a força adicional para o contra-ataque que culminou com a queda de Set. Na tela ao fundo, os corpos estilizados dos oponentes mostravam os pontos onde a energia era mais ativa.

O aprendiz foi variando os estilos tentando surpreender o mestre, mas sem sucesso. Muay thai, karatê, taekwondo, box tradicional, ju jitsu, não importava: ao final das sequências terminava no chão ou arfando com um golpe duro.

– Você está me insultando com esse nível de luta – disse o mestre. – Mostre-me um pouco mais de vontade!

Set assumiu então a postura inicial do estilo gafanhoto do kung fu e deu uma boa respirada. Um onda correu a linha “afinação“. “A rocha” firmou os pés no chão, flexionando as pernas e quadril na posição estável de cavalo, cerrando suas mão em forma de garra. Ia de estilo urso do norte.

Uma rápida sucessão de golpes se seguiu: ataques, defesas e contra-ataques. Desta vez estava a luta estava equilibrada e fluída, com a energia indo de um para outro e entre as partes internas de suas tríades. Esteticamente era bonito de ver, embora os alunos permanecessem tensos. Isso não vai terminar bem, pensavam.

Um desfecho insperado

Era de conhecimento comum dos agentes que, durante os combates, as energias dos corpos fluíam de maneira à otimizar os ataques, mas mantendo a integridade física e a estamina (ou fôlego, como uns erroneamente chamavam: era bem mais do que isso). No entanto, conforme a vontade de vencer aumentava, coisas estranhas aconteciam. Aos olhos menos treinados, nada parecia de diferente, mas, na tela, era visível os formatos que as tríades assumiam nas lutas.

Punhos se tornavam martelos, maças, facas, garras; dos antebraços surgiam escudos ou espinhos; pernas viravam espadas e bastões. Eram ilimitadas as possibilidades de formas assumidas, ficando restritas à capacidade mental, experiência e níveis energéticos disponíveis. O momento certo de usar cada habilidade era fundamental para não gerar exposição física aos danos mas, pior que isso, era apresentar dissonâncias. O desequilíbrio da afinação era quase sempre motivo para as derrotas.

Os aprendizes precisavam fazer esforço consciente para direcionar a energia e dar forma à ela, tornando-os lentos. Os mais avançados na arte, agiam mais por instinto, com a experiência adquirida em batalhas anteriores. Quanto mais lutavam, mais a energia mente aprendia, o que uns chamam pomposamente de neuroplasticidade cerebral, muito embora afetasse todo o corpo. Quanto mais perto da morte, mais forte retornavam depois de recuperados, o que fazia com que muitos procurassem viver no limite, no limiar do esgotamento energético.

Isso explicava a ferocidade do mestre nos combates, que havia chegado ao limiar por várias vezes. Nada se compara com aquela sensação, como costumava se gabar.

Aquilo estava interessante, porém, demorado demais, pensou “a rocha”, imaginando que seus alunos pudessem entender como um sinal de fraqueza de sua parte. Assim, resolveu iniciar uma sequência de respirações compassadas. Inspiração, expiração, inspiração, expiração. 4/4. Sua velocidade diminuiu e passou à absorver mais golpes. Estava sacrificando o corpo para aumentar a mente. A barra de afinação pulsava em um ritmo exato. Iria desferir um golpe finalizador em breve.

Set parecia ter caído na armadilha, continuando com os ataques. Garras de gafanhoto vermelhas podiam ser vistas na tela, enquanto uma grossa pata verde de urso absorvia os impactos. O impeto dos ataques, motivados por uma falsa impressão de que levava vantagem, causava um alto gasto energético, criando dissonâncias. Aquilo iria terminar logo.

Os agentes, que estavam tensos, passaram a ficar excitados. O mestre ia dar uma lição no novato. Viam um fraco metal colidindo contra uma pedra dura. O sistema de som gerava um incomodo tinido: Tim, tim, tim. Vai quebrar, pensaram.

No entanto, algo estranho aconteceu nos instantes finais. Os olhos de Set ficaram semi-serrados, uma expressão sinistra tomou sua face. Tim, tim, tim. A frequência dos ataques começaram a mudar lentamente. Tim… tim, tim. Tim, tim…tim. Estava criando um complexo compasso quebrado. A barra espírito diminuía enquanto a mente aumentava exponencialmente. – Louco! – alguns alunos exclamaram, olhando atônitos uns para os outros. Ele vai se matar assim: se o golpe do mestre for forte o suficiente para esgotar o corpo de Set, o espírito seria o próximo afetado. Quando a energia do espírito se esgota, as criaturas morrem. Nada vive sem o espírito.

Tim……. tim… tim…..

O mestre avançou com um velocidade acima do normal, com o braço direito estendido. Na tela, pôde-se ver um urso estilizado, com um poderosa pata afiada que descia assustadoramente rápida, visando dilacerar a presa. Uma mistura das cores azul e vermelha conferiam uma aura lilás brilhante no punho real. Era a junção do espírito e a mente em ação. O antebraço tornou escuro com padrões de pedra: o elemento terra entrava em ação. Seria um golpe formidável.

No entanto, décimos de segundo antes, Set defendeu o ataque com o braço esquerdo, absorvendo o impacto, o que fez com que sua barra corpo esgotasse quase que instantaneamente. Na tela, uma grande pinça de louva-deus em forma de foice, brilhante como aço, decepou a garra do urso. TIM… TIM… TIM… Devido a grande quantidade de energia dissipada, houve um glitch nos equipamentos elétricos. Luzes piscaram e o visor VT-5 dele queimou, emanando faíscas. Como um raio, um aríete real, com a ponta em forma de um carneiro cornudo se projetou do braço direito de Set, emanado de um bracelete, acertando em cheio o peito do instrutor mestre, que voou pelo ar, atingindo fortemente a parede. O Tim,tim,tim cessou e o bracelete desapareceu.

Os incrédulos agentes não acreditaram no que tinha acontecido. Uns juravam ter visto um ariete real. Assustados, começaram freneticamente a acessar os dados gravados da luta, para entenderem aquela loucura. Só fluentes tinham a capacidade de condensar matéria da energia. E fluentes não andavam soltos por aí, no meio das pessoas, muito menos dentro de uma unidade da AEA-TS.

O instrutor, se recuperando do golpe, disse, com medo nos olhos, como se tivesse visto um fantasma: – Pelos cinco! Quem diabos é você?


Ária Suspensus

John digitou uma longa sequência alfanumérica no painel do elevador. Depois de uma longa descida, se encaminhou por um corredor absolutamente branco e limpo, andando alguns metros até um ponto de checagem, onde três agentes fortemente armados vigiavam.

– Bom dia, senhor! – disse um dos agentes. Jonh aquiesceu apenas. Era um homem de poucas palavras.

Depois passar pelos leitores de digitais e de íris, a sua tag foi lida e aprovada após alguns instantes. Caminhou mais alguns metros até o final do corredor, onde uma pesada porta bloqueava o caminho. John digitou uma segunda senha, mais longa do que a anterior.

Do outro lado da porta, na antecâmara, vestiu o traje especial, monotonamente, como estava habituado. Depois da esterilização e despressurização, adentrou na área das souls trap´s, as armadilhas das almas. Longas fileiras com tubos transparentes emitiam flashes. Dentro, dois vortex de energia formavam portais, um em cima e outro embaixo, com uns dois metros de distância entre eles. Através deles, corpos de seres disformes, tomados por ira e loucura, despencavam em um ciclo contínuo. Trincas de artefatos tentavam, naquele curto período, romper a dupla camada protetora que selava o interior da trap, mas sem sucesso.

John, através de um dispositivo eletrônico embutido em seu traje, fazia checagens e analisava resultados de cada trap que passava, seguindo um itinerário pré-definido. Dia após dia, fazia aquele tedioso trabalho de andar pelos corredores formados pelos tubos. Dezenas de centenas deles. Em frente à um, viu a identificação do fluente aprisionado: Rachel E. GrüneSchild. – Tudo ok – pensou, e se dirigiu para a próxima armadilha.


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