A dominação do sertanejo.

A dominação do sertanejo.

Sertanejo é o estilo musical preferido pelos brasileiros atualmente, principalmente entre as mulheres. É, à sua maneira, um fenômeno, pois teve grande adesão popular, numa ampla faixa de idades. Quais seriam os motivos que fazem com que esse estilo seja tão apreciado pelas pessoas?

Dominação do sertanejo
Quase todos gostam no Brasil

Contradição no nome

Sertanejo indica algo que vem do sertão, lugar árido e inóspito, normalmente pobre e com baixo nível de escolaridade. Longe dos grandes centros, sem recursos e lembrado pelos políticos somente na época das eleições. É rústico, e que nada lembra baladas com áreas vips e vodka/whisky com energéticos.

Esteticamente está mais para o country americano do que o regionalismo brasileiro. A música caipira, com viola e violão, é mais rica pela simplicidade do conjunto artistas/letras/sonoridade, que não tenta ser o que não é. Autênticos na cultura e propósito. Havia uma influência de ritmos mexicanos também, como caso de Milionário e José Rico.

Breve histórico

O sertanejo esteve presente durante bastante tempo, mudando de formato, sonoridade, temática, incorporando e se misturando com outros ritmos conforme a região e preferência dos ouvintes. De uma forma de outra, sempre houve um nicho que apreciasse.

Teve uma fase de duplas com nomes exóticos e bizarros nos anos 70 como:

  • Conde e Drácula
  • Jacklane e Manda Brasa
  • Marlboro e Hollywood
  • Prefferido e Prediletto
  • Simpatia e Gente Fina
  • Sorriso e Sincero
  • Lírio e Lário
sertanejo
Domyngo e Feryado

Bastante popularescos e músicas de gosto duvidoso (o que parece ser uma marca do gênero).

Algumas duplas se sobressaíram, ainda que com o estigma de bregas mas, pela longevidade (e marketing adequado), conseguiram uma sobrevida e ter até mais relevância do que no passado (como Chitãozinho e Xororó).

Depois veio uma fase romântica, com nomes como Zezé de Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo, Daniel. Ainda que fizessem bastante sucesso, o público majoritário ainda era os de baixa renda e escolaridade. Para a juventude dos grandes centros, ainda era tido como brega.

Já o “universitário”, usado como adjetivo, veio de um movimento de uma minoria (de humanas, provavelmente), que queria dar um status mais sofisticado para estilos tidos como cafonas ou regionais. Modinha de excêntricos. Do sucesso do forró universitário, veio no vácuo o sertanejo universitário e uma explosão de duplas genéricas. Agora os jovens estavam representados.

Também houve uma mistura com o vanerão (mais dançante por assim dizer, mas com certo distanciamento entre os pares, com origem na região sul do país). Michel Teló popularizou a fusão.

No norte/ nordeste, onde a população mais simples e sem frescura, gosta de dançar colado, e ritmos mais acelerados, abraçou o sertanejo com a fusão com o forró (Aviões do forró e Wesley Safadão) e o regionalismo do Pará com Calypso.

Uma derivação, o chamado “sofrência”, também tem seu espaço ao falar de chifres e traições.

Desta maneira, de norte à sul do país, de forma natural ou pela força do marketing, o estilo se alastrou. Não tendo nenhuma pressão social para motivar uma mudança, parece que se manterá assim ainda por um bom tempo.

Um fator positivo a se destacar é que os artistas (ou suas bandas de apoio) tocam instrumentos musicais de verdade e sabem cantar afinado (ou parte, pelo menos), mesmo ao vivo, diferentemente de outros lixos de barulho, que insistem em chamar de música e manifestação cultural.

Qual é o apelo popular?

Por que tantas pessoas gostam? Não tenho uma resposta exata para isso e não posso falar pela maioria, então darei MINHA OPINIÃO.

Reflexo do nível cultural do Brasil, seja em valores ou intelectualmente. Reflete o momento atual do culto à aparência, do parecer sem ser, de tentar ser o que não é, medo de ficar de “fora” com receio da irrelevância, onde as vidas e gostos são expostos na esperança da aprovação externa.

Músicas rasas, que não exigem reflexão, de fácil digestão, acompanhando a superficialidade dos desejos coletivos de relacionamentos descartáveis, ostentação do pouco que se tem a oferecer, baladas, bebidas, mulheres e homens objetificados em padrões estéticos acima da média, numa outra contradição que revela muito sobre a hipocrisia entre discurso e a ação, quando tenta-se assegurar (ou forçar goela abaixo) os direitos das mulheres e minorias, enquanto ouvem, cantam e dançam reforços dos esteriótipos e preconceitos, alheios às consequências. Imediatismo do prazer e futilidades.

O movimento não é novo, pois só veio substituir um estilo que estava saturado e altamente criticado pela super exposição de corpos e letras chulas: o Axé. Década de 90 e parte dos anos 2000 foram bizarros, com os brasileiros não sabendo como lidar com a liberdade de expressão depois de anos de censura. Valia tudo.

Conforme dados de uma pesquisa feita nas capitais (ver gráficos abaixo), as mulheres são as que mais consomem música sertaneja, seguido de MPB e depois gospel; entre os homens, sertanejo é o primeiro, seguido de MPB e depois rock. Empatado no quarto lugar está o pagode.

Possíveis causas:

De qualquer forma, ainda me é estranho o motivo que levou à essa escolha. Tenho algumas ideias:

  • Alguns poucos artistas estavam fazendo sucesso regionalmente e foram abraçados pela indústria fonográfica como salvação após as bandas de pop/rock ficarem velhas ou desmanteladas com o tempo e as de Axé se tornarem politicamente incorretas.
  • Outros que estavam no ostracismo foram resgatados, atingindo os saudosistas mais velhos.
  • Parte da população saiu da zona de pobreza extrema, podendo se dar ao luxo de consumir música e ter acesso à eventos.
  • Algumas caras bonitas, marketing afinado com redes sociais e novos métodos de distribuição de música, atingindo os mais novos. Acesso à Internet ajudou no processo de difusão.
  • Algumas sub/celebridades, com gostos duvidosos, expressam o interesse por alguma dupla ou música e pronto, sucesso instantâneo. Manada de seguidores abraça sem questionar.
  • Letras simplórias e refrões grudentos que não exigem muito uso do cérebro, propícias para entretenimento noturno, onde os temas ativam ou reforçam o objetivo final que é a pegação ou ficar bêbado.
  • Letras sobre “dor de cotovelo” e “traições” tem um grande apelo entre as mulheres (talvez se sintam representadas de alguma forma?).
  • Letras que falam diretamente com o público, sem que haja necessidade de algum tipo de interpretação mais elaborada.
  • Falta de compromisso com qualquer tipo de causa ou movimento de diferenciação. Consumo casual, inconsequente e descartável.

Ainda sobre a pesquisa, me chamou a atenção a MPB ser a segunda opção. Não me parece certo, pois nas mídias não há tanto destaque. Escolha da “intelectual MPB” para contrabalancear as futilidades do sertanejo? Qual MPB se referem, às antigas ou às atuais?

Outra coisa é que a música brasileira é mais apreciada do que as estrangeiras, o que reforça o caráter da identificação e representação.


Abaixo segue uma pesquisa de 2017, feita com pouco mais de 10 mil pessoas, em doze capitais brasileiras. Acredito que a tendência é de se acentuar essas preferências conforme avança-se para fora dos grandes centros.

Mesmo sendo dados antigos, achei bem interessante este mapa de relevância por estilo musical. Explore.


Dados do site http://www.culturanascapitais.com.br/como-33-milhoes-de-brasileiros-consomem-diversao-e-arte/ .

E você, concorda, discorda? Que tipo de música prefere? Comente.

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