A depressão por um deprimido.

depressão omdh
Corvo

Definição técnica de depressão:

O que diz o dicionário?

[Psicologia] Doença psiquiátrica, de origem crônica, que causa alterações de humor, definida por uma tristeza intensa e permanente, agregada à dor, à desesperança, à culpa etc., com ou sem razão aparente.

[Figurado] Enfraquecimento físico ou moral; desânimo, esgotamento, abatimento.

Quais os tipos principais:

  • Transtorno depressivo maior.
  • Depressão bipolar.
  • Depressão pós-parto.
  • Depressão psicótica.
  • Distimia (transtorno depressivo persistente).
  • Transtorno afetivo sazonal.
  • Transtorno depressivo induzido por substância.
  • Transtorno disfórico pré-menstrual.

Neste post me aterei ao transtorno depressivo maior.

Quais os sintomas mais aparentes da depressão maior:

  • Humor deprimido durante a maior parte do dia.
  • Diminuição acentuada do interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades durante a maior parte do dia.
  • Diminuição ou aumento do apetite.
  • Insônia ou hipersonia.
  • Capacidade diminuída de pensar, concentrar-se ou indecisão.
  • Pensamentos recorrentes de morte ou suicídio, tentativa de suicídio ou um plano específico para cometer suicídio.
  • Agitação ou atraso psicomotor observado por outros..
  • Fadiga ou perda de energia.
  • Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada.

Se você tiver 5 ou mais dos sintomas acima, caso não saiba, muito provavelmente sofre de depressão. Difícil imaginar alguém que apresente essas características e não reconheça o problema. Talvez quem esteja num estado tão lastimável que nem se importe em saber ou entender.

isolation
Tudo parece cinza

O que eu entendo como depressão:

Breve histórico:

Apesar de sofrer variações de humor, ter forte autocrítica e sentimentos de inferioridade durante boa parte da vida, somente em 2007 fui medicado pela primeira vez. De lá para cá, passei por 8 psiquiatras, 6 psicólogas, tomei florais e compostos homeopáticos, fiz acupuntura e tratamento em centro espírita.

Tomei praticamente quase todos os remédios e tentei várias combinações (nome dos princípios ativos e/ou nomes comerciais):

Amitriptilina, Fluoxetina, Paroxetina, Citalopram, Escitalopram, Sertralina,Venlafaxina, Duloxetina, Bupropiona, Aripiprazol, Alprazolan, Olcadil, Pristq, Depakote, Anafranil, Zolpiden, Moratus, Valdoxan, Brintellix, Velija, Carbolitium. Parei, voltei, troquei, testei, passando por diversos períodos de adaptação e abstinência com efeitos colaterais intensos. Eu sofria e quem estava ao redor também. Enjoos, tonturas, boca seca, intestino preso, sono, irritação, dor de cabeça… a lista é longa.

Pills, a lot of pills
Mal necessário

Como é a sensação de estar com depressão?

Bom, quem está com depressão sabe, muito embora os sintomas variem de pessoa para pessoa. O pacote psico-socio-biológico de cada um é diferente. Para quem não sofre é difícil para entender, como se tentássemos explicar o que é o calor para quem está com frio.

Desânimo, falta de vontade, apatia, desejo de ficar quieto, que o mundo fique quieto e que não façam barulho; isolamento social, falta de empatia ou simpatia, desejo de que não lhe dirijam a palavra, para que não precise interagir; insegurança e baixa autoestima, se achar incapaz e inútil, que tudo e todos ao redor são ameaças em potencial; preocupação demasiada com opinião alheia e o que podem pensar sobre o que quer que fale, faça ou pense (sim, até os pensamentos são alvos… dos próprios pensamentos).

Raiva e inveja de quem aparentemente vive numa bolha, rindo, comemorando, torcendo, interagindo. Como podem estar dando risada se tudo está uma merda? São alienados ou apenas idiotas? Raiva por saber que são só pensamentos e que não tem controle sobre eles. Falta de perspectiva, de esperança, de sonhos e desejos. Aliás, um desejo é constante: que tudo acabe de uma vez. Rápido e que não tenha nada do outro lado te esperando. Não é, no entanto, uma vontade de parar de viver e sim de parar de sofrer, de sentir as coisas ruins.

Em um levantamento em 2002, das 57 milhões de mortes totais, 172 mil foram por guerras, 569 mil por crimes violentos e 873 mil por suicídio. É, muita gente não resiste à si mesmo (2392 por dia, 99 por hora, 1,67 por minuto). Mais pessoas se matam do que são mortas. Veja post sobre o Setembro Amarelo e prevenção ao suicídio.

Agora vem a parte de conselhos de livros de auto-ajuda e como conseguiu superar?

Não. Não estou curado, e não tenho conselhos para oferecer. Conselhos enchem o saco na verdade. Pessoas falando que basta ser feliz, basta se perdoar, bastar sorrir, basta confiar em si mesmo ou em Deus, numa força maior que você, no universo… acham que queremos estar na merda de propósito? Ou que somos influenciáveis e simplórios o bastante para mudar a forma de pensar de um instante para outro?

Ou relatos de quem estava doente e se curou através de um método revolucionário, dieta exótica ou culto religioso, apenas para vender livros e se autopromover. Parece só reforçar a culpa por não conseguirmos enquanto outros conseguem.

Bom, talvez funcione para alguns, senão não teriam tantos livros sobre o assunto. O problema é que te tratam como um idiota incapaz de fazer escolhas certas. Quem sofre de depressão está mais desperto do que os considerados normais, pois refletem mais sobre seus próprios pensamentos.

É verdade que muitas vezes não sabemos qual é a escolha certa (ou pior, achamos que sabemos: não escolher nada (que é, paradoxalmente, uma escolha)), ou não sabemos o que precisamos ouvir. Você só sabe quando encontra. Às vezes você não acredita na fonte, mesmo que o conteúdo seja parecido (uma citação da bíblia te incomoda, um artigo cientifico faz sentido, por exemplo). O meio faz diferença.

O que precisava ouvir (ler na verdade), veio aleatoriamente e sem premeditação. Encontrei no livro The subtle art of not giving a fuck, do autor Mark Manson (traduzido com o péssimo nome de “a arte de ligar o foda-se). Lá, entre algumas coisas boas, alguns lugares comuns, tinha a frase “VOCÊ NÃO É ESPECIAL”, no contexto de “nem para o bem nem para o mal”, de “o melhor ou o pior”, que o mundo não lhe deve nada e que não merece tratamento diferenciado por você ser o bonzão ou por você ser um miserável deprimido.

Você não é o único que tem esse tipo de problema. Milhares têm. Você não é um puzzle impossível de resolver, nem sua mente é intrincada o suficiente para não terem acesso ou consertarem.

Estranho, porque é uma frase bem simples e corriqueira. Achar que eu era um caso sem solução era uma auto intitulação (entitlement), um rótulo criado por mim mesmo para justificar os fracassos pessoais. Depressão não pode ser um muleta.

Além disso, alguém que se importe ou cuide de você dificilmente falará que você não é especial, com o intuito de te ajudar. Duro demais. Insensível. Só seria dito por quem quisesse te machucar ou ofender mas, às vezes, é melhor uma verdade crua do que floreios e eufemismos vazios. Infelizmente, não funciona para todos.

Parece simples. O problema são os pontos cegos. Não há como você se analisar objetivamente, te enxergar de fora, não completamente, não verdadeiramente. Tem sempre um canto escuro, fedido e mofado que você se recusa a olhar, ou algo bizarro que te aterrorizava mas que faz parte da paisagem agora. Como ter um cadáver sentado no sofá… de tanto vê-lo, nem lembra do que se trata e o sentido em si se descaracteriza. A leitura me ajudou à pensar de forma diferente, servindo de base para outras conclusões benéficas para minha vida.

Por fim, falar em cura da depressão parece algo distante quando se está imerso nela. Não ocorre de uma hora para outra, nem tem distinções emocionais perceptíveis. Ocorre gradativamente e, quando se dá conta, está agindo de maneiras diferentes, mais leve e sem tanta cobrança interna. No entanto, o estado original não é restaurado, principalmente se sofre dela por muito tempo (quem você seria sem não tivesse depressão?). O fardo é aliviado, mas suas memórias, relações, gostos e hábitos se modificam irremediavelmente. Talvez seja assim para tudo na vida.


Este post é meramente um depoimento de quem tem um pouco de conhecimento e experiência com psicologia e depressão, não servindo de referência para nenhum tipo de tratamento ou diagnóstico. Se estiver com problemas, procure ajuda especializada.


Você pode se interessar pelo post: a formiga e o homem.

Observação: eu achei um bom livro, por isso recomendo. Não estou fazendo propaganda à toa. Friso: bom livro. Não excelente, nem excepcional, nem todo conteúdo é original, apenas bom.


Que tal ouvir uma música para entrar no clima?

Quem sabe quando nos encontraremos de novo

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2 thoughts on “A depressão por um deprimido.

  • 14 de junho de 2020 em 10:51
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    Recebi seu site de uma amiga em comum, com quem trabalhamos. Li seu artigo sobre depressão, sempre te admirei por sua inteligência e agora ainda mais, te desejo sucesso, vou compartilhar seu site com as pessoas que conheço. Espero de coração que se sinta melhor a cada dia e que seu jardim fique sempre lindo.

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    • 14 de junho de 2020 em 16:04
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      Oi! É… naquela época eu não estava bem mesmo. Poderia ter feito muito mais pela empresa e pelas pessoas. Enfim… agora estou melhor, mas ainda falta. Iracilda, obrigado pelo elogio. Me esforçarei para deixar a “casa” em ordem.

      Resposta

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